Andre Dusek/AE
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Apesar de certa, volta de Delúbio constrange petistas

Membros da Executiva, como Patrus Ananias e Tarso Genro, vão faltar à reunião em protesto; ex-tesoureiro foi expulso em 2005

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

29 Abril 2011 | 00h00

Expulso do PT há cinco anos e meio, no rastro do escândalo do mensalão, o ex-tesoureiro Delúbio Soares será anistiado pelo partido no sábado. Delúbio protocolou ontem, em reunião da Executiva Nacional, o pedido de refiliação, que passará hoje pelo crivo do diretório petista.

"Venho aqui, humildemente, pedir o meu retorno ao PT. Quero voltar a ser militante do partido que ajudei a fundar", disse Delúbio, à noite, ao se encontrar com integrantes de sua antiga corrente, rebatizada de Construindo um Novo Brasil (CNB). Emocionado, o ex-homem forte do PT chorou. Muito aplaudido, fez um discurso de dez minutos, mas sem autocrítica.

O processo de reabilitação de Delúbio provocou reações no PT, embora ele conte com o apoio de pelo menos 59 dos 84 integrantes do Diretório Nacional. O ex-ministro Patrus Ananias, o governador Tarso Genro (RS) e o senador Delcídio Amaral (MS) faltarão à reunião de hoje e amanhã por discordar do perdão ao ex-tesoureiro.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende o retorno de Delúbio, seu amigo há 30 anos, mas chegou a manifestar receio de que a anistia, agora, contamine o processo dos réus do mensalão. "A partir do momento em que houver a reintegração (de Delúbio), esse tema voltará à tona e, com a repercussão, a possibilidade de interferência no julgamento é grande", concordou o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), numa referência ao julgamento do caso, previsto para 2012. "De qualquer forma, não houve condenação formal e o partido não pode manter uma pena ad aeternum."

Na carta que enviou ontem à Executiva, o ex-tesoureiro lembrou que nunca foi filiado a outro partido. "Sou PT de formação e de coração", escreveu. À noite, ele participaria de um jantar em sua homenagem, com outros petistas, na casa da senadora Marta Suplicy (SP).

Acusado de recolher R$ 55 milhões em "recursos não contabilizados" na campanha presidencial de 2002, Delúbio foi expulso por "gestão temerária". Na prática, receberá a anistia por ter ficado em silêncio desde a maior crise que atingiu o governo Lula e dizimou a cúpula do PT.

Desgaste. É a segunda vez que Delúbio tenta retornar ao PT após sua expulsão, em outubro de 2005. Em abril de 2009, ele encaminhou pedido para a reintegração, mas foi obrigado a desistir, para não atrapalhar a pré-campanha de Dilma Rousseff. Na ocasião, disse que vivia um "calvário" pessoal e seus amigos prometeram lugar por sua volta neste ano. "Por que 2011 se o Delúbio de hoje é o Delúbio de 1980 e será o Delúbio de amanhã?", protestou ele à época, batendo na tecla de que todos os políticos fazem caixa dois. No início do mês, um relatório da Polícia Federal apontou uso de dinheiro público no mensalão.

Mesmo com o apoio de mais de 60% dos petistas, Delúbio enfrentará resistência de grupos como Mensagem ao Partido - do ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) - e Articulação de Esquerda, que prometem se opor à anistia. "Desde a crise de 2005, o PT vem reconstruindo sua unidade e essa refiliação só trará desgaste", afirmou Carlos Árabe, secretário de Formação Política do PT. "Há um processo em curso no Supremo e o partido nem sequer tomou posição sobre isso", acrescentou.

Em 2010, Delúbio foi condenado pelo Tribunal de Justiça de Goiás, acusado de fraudar declarações para continuar recebendo salário como professor, apesar de não dar aulas há mais de dez anos. Por causa da condenação, deve ser barrado pela Lei da Ficha Limpa, caso tente participar das eleições de 2012.

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