Celso Junior/AE
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Apoio a Irã na ONU foi erro, diz Dilma

Declaração ao 'Washington Post' foi divulgada pouco depois da notícia de que Celso Amorim deve mesmo deixar comando do Itamaraty

Luciana Xavier CORRESPONDENTE NOVA YORK, Lucas de Abreu Maia, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2010 | 00h00

A presidente eleita Dilma Rousseff criticou, em entrevista publicada ontem no jornal The Washington Post, o comportamento do Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU), em 18 de novembro, ao se abster de votar uma condenação às violações de direitos humanos no Irã. "Não concordo com o modo como o Brasil votou. Não é a minha posição", afirmou Dilma, que vinha evitando fazer comentários sobre a decisão do Itamaraty.

Na votação, a ONU aprovou uma censura ao regime iraniano por violações de direitos humanos e pediu o fim dos apedrejamentos, da perseguição a minorias e de ataques a jornalistas.

O Brasil foi um dos 57 países que se abstiveram na votação - outros 80 votaram a favor da condenação e 44 foram contrários. A aproximação do Brasil com o Irã tem sido vista com preocupação por Estados Unidos e Europa.

A censura da ONU a Teerã foi motivada pela condenação à morte por apedrejamento de Sakineh Achtiani, acusada de adultério e de envolvimento no assassinato do marido. Em sua primeira entrevista como presidente eleita, Dilma havia criticado a sentença.

Na entrevista ao Post, ela voltou a condenar o apedrejamento de mulheres no Irã. "Não concordo com as práticas medievais características que são aplicadas quando se trata de mulheres. Não há nuances e eu não farei nenhuma concessão em relação a isso", garantiu. "Não sou a presidente do Brasil (hoje), mas ficaria desconfortável, como uma mulher eleita presidente, em não me manifestar contra o apedrejamento. Minha posição não vai mudar quando assumir."

As declarações de Dilma foram antecipadas no site do jornal americano na sexta-feira, pouco depois da notícia de que o atual chanceler, Celso Amorim, deve mesmo deixar o comando do Itamaraty. O ministério das Relações Exteriores provavelmente será comandado por Antônio Patriota - que já foi embaixador do Brasil em Washington.

A despeito da inflexão do discurso em relação ao Irã, a presidente eleita defendeu o diálogo com o governo dos aiatolás e criticou a política externa americana para a região. "O que vemos no Oriente Médio é a falência de uma política de guerra: estamos falando do Afeganistão e o desastre que foi a invasão do Iraque", criticou. A presidente eleita defendeu as negociações de paz na região, sugerindo que seu governo manterá a estratégia atual de intermediar conflitos.

Economia. Dilma reconheceu que o momento internacional é de grande instabilidade global por causa da crise econômica e é fundamental estimular a retomada das economias desenvolvidas a fim de garantir o equilíbrio do mundo. "Ninguém no Brasil se sentirá confortável se os EUA continuarem com altas taxas de desemprego. A recuperação dos Estados Unidos é importante para o Brasil porque são um extraordinário mercado consumidor."

A presidente eleita fez questão de reiterar seu compromisso com a estabilidade econômica. "Essa foi a maior conquista do nosso país", comentou.

"Acredito que o meu governo será diferente do governo do presidente Lula. Não poderei repetir sua gestão, porque a situação atual é muito melhor que em 2002. Meus desafios são outros. Tenho de encontrar soluções para problemas como a qualidade da saúde pública no Brasil, a questão da segurança e o déficit de infraestrutura", destacou.

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