Apoio psicológico ajuda tripulação a voar após tragédias

A formação de pilotos e comissários de bordo inclui um constante treinamento para que em momentos mais difíceis, como no caso da tragédia com o Airbus A320 que fazia o vôo 3054 da TAM, mantenham a empresa no ar. Além dos cursos ministrados constantemente por psicólogos na maioria das companhias aéreas, consultórios especializados nesse segmento vêm sendo cada vez mais procurados, como é o caso da ex-comissária da Varig por 23 anos e hoje voltada para os temores da categoria, Rosana Dorio. "O comissário de bordo se prepara todo dia para o acidente, não porque vai ter, mas para minimizar o impacto", explicou a psicóloga à Reuters. Regulamentado por lei em 2000, o gerenciamento da crise nas empresas levou a TAM a criar em 2002 o programa especial de assistência ao cliente em emergência, conhecido pela sigla PIF, no qual empregados voluntários são treinados para ajudar a confortar parentes de vítimas e tripulação. "Temos 700 voluntários de diversas áreas da empresa no programa", disse a assessoria da TAM. Segundo a empresa, nenhum piloto ou comissário foi afastado do trabalho após a tragédia que matou mais de 190 pessoas esta semana e cujas causas ainda estão sendo investigadas. Além dos voluntários, profissionais também são chamados nos momentos de emergência para tratar dos casos mais graves. Para a psicóloga Patrícia Kortlandt, especializada no atendimento a pilotos, comissários e em curar a fobia de voar de leigos, é possível continuar arriscando a vida diariamente mesmo quando o desastre mata pessoas próximas, mas é preciso estar bem preparado e ser assistido. "O piloto pensa que só não foi ele por acaso, e eu tenho certeza que todo mundo da TAM está passando por esse choque sim, e acho que é muito importante olhar essa questão psíquica, porque afeta todo mundo", alertou. Ela disse que desde o início da crise do setor aéreo, deflagrada no ano passado após o acidente da Gol que matou 154 pessoas, em Mato Grosso, a procura por tratamento no seu consultório aumentou significativamente. "Esse momento da aviação brasileira é muito complicado, a repercussão do apagão aéreo gera nos pilotos uma sobrecarga de estresse, imagina quando acontece um acidente?", avaliou. MAIS ALERTA Por isso, no treinamento que faz com pilotos, o primeiro exercício é de relaxamento, depois de reforço da técnica de pilotagem para que a decisão certa seja tomada em um curto espaço de tempo. Ela explicou que após um acidente como o da TAM, a primeira atitude que os pilotos e comissários tomam é ficar mais alertas, mas ao mesmo tempo sentem muita angústia. Foi assim com o piloto Célio Eugênio, 33 anos de profissão e hoje no Sindicato Nacional dos Aeronautas, ao saber, em 1996, que o Fokker 100 da TAM havia caído e matado 99 pessoas dois minutos após decolar do aeroporto de Congonhas. Trabalhando na Varig na época, sentiu muito pelos colegas, mas no mesmo dia já estava levantando vôo. "Normalmente a grande maioria reage de maneira profissional conforme foi treinado, é um treinamento regular e ajuda a enfrentar fatos críticos como esse", explicou o piloto. Na época, apesar de não regulamentado, o atendimento psicológico à tripulação e às famílias das vítimas não era tão organizado, "mas existia e funcionava, só foi mais aperfeiçoado", explicou Eugênio. Em toda a sua carreira ficou sabendo apenas de um caso de piloto que se afastou da profissão após um acidente da Transbrasil, em que perdeu o pai. "Ele era piloto de outro avião da Transbrasil e não conseguiu voar por muito tempo, mas depois foi reintegrado", contou. Para a psicóloga Patrícia, a paixão pela profissão supera a perda, "e os pilotos são uns apaixonados por voar", explicou. Nos saguões dos aeroportos no Rio de Janeiro, dois dias após o acidente, um clima de normalidade podia ser observado entre os funcionários da TAM e outras companhias. Segundo passageiros, no entanto, dentro das aeronaves a história era diferente. "Dá para sentir a tensão das aeromoças e dos passageiros, mas tem que voar né?", relatou a funcionária pública Cristina Fonseca ao desembarcar no Santos Dumont na quinta-feira. Impedido de conceder entrevistas, um piloto da TAM limitou a uma frase o seu sentimento: "Se a gente não trabalhar a empresa pára", conformava-se, enquanto ajeitava o quepe e embarcava para mais um dia de vôos.

DENISE LUNA, REUTERS

20 Julho 2007 | 13h44

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