Após 2 anos, familiares das vítimas da Gol reclamam de demora

Parentes reclamaram da demora no processo criminal no Brasil e da lentidão americana para ouvir os pilotos

Leonêncio Nossa, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2008 | 10h11

Dois anos após o acidente entre o Boeing da Gol e o jato Legacy - que deixou 154 mortos no dia 29 de setembro de 2006 -, os familiares das vítimas reclamam da lentidão no processo criminal no Brasil e na demora para os pilotos americanos do Legacy serem ouvidos. O acidente completa dois anos nesta segunda-feira, 29, e cerca de 300 pessoas participaram da missa na catedral de Brasília no domingo.   Veja também: Após um ano, familiares voam sobre destroços da Gol Das medidas anunciadas, só uma vigora Especial sobre a crise aérea  Todas as notícias sobre a crise aérea       Os parentes esperam que os pilotos norte-americanos do Legacy, Jan Paladino e Jean Lepore, sejam ouvidos pela justiça dos Estados Unidos. Neuza Machado, mulher do passageiro Valdomiro Machado, reclama da decisão do juiz federal de Sinop (MT), Murilo Mendes, que permitiu a tomada dos depoimentos dos pilotos pela Justiça de Nova York.   No mês passado, o próprio Mendes se queixou da lentidão do Judiciário norte-americano. "É preciso perguntar por que eles não vieram ao Brasil prestar esclarecimentos", afirmou Neuza. "O processo está muito lento e a Justiça do Brasil também está lenta."   Com o acidente e a busca de respostas, Neuza se familiarizou com termos técnicos e quase incompreensíveis. Passados dois anos, ela avalia que a responsabilidade dos controladores brasileiros de vôo para o acidente é "menor" que a dos pilotos e da empresa de taxi aéreo em que eles trabalhavam, a ExcelAir.   "Houve uma sucessão de erros no controle de vôo, mas os controladores são os menos culpados", diz. "A empresa e também a Embraer (fabricante do Legacy), também são responsáveis pois mandaram dois pilotos despreparados e desqualificados ao Brasil", faz coro Salma Assad, tia do passageiro Átila Assad.   Tanto Neuza quanto Salma queixam-se da falta de empenho do governo brasileiro, especialmente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no caso. Elas dizem que por questões "diplomáticas" o governo não atuou para que os pilotos permanecessem no País durante a tramitação do processo. "Se brasileiros tivessem feito isso nos Estados Unidos não seriam soltos", afirma Neuza. Ela destaca que Lula nunca recebeu os representantes da famílias das vítimas do acidente da Gol.   À tarde, um grupo de parentes dos passageiros do vôo 1907 se reuniu no Jardim Botânico de Brasília, para plantar 154 árvores em memória das vítimas. Neuza diz que as famílias vão insistir na busca de respostas, para que a tragédia não se repita. "A gente trabalha para que não tenham outros acidentes, mas tempos depois tivemos outro choque", diz, referindo-se à explosão do avião da TAM, em Congonhas, em 17 de julho de 2007. Na catedral de Brasília, pessoas vestiam uma camiseta com o número 353, a soma dos 154 passageiros da Gol com os 199 do vôo 3054 da TAM.   Outdoor pernambucano   "Dois anos de saudades, dois anos sem respostas, dois anos sem justiça!" O lamento, indignado, está estampado desde sábado em um outdoor instalado próximo ao Aeroporto Internacional dos Guararapes, que traz as fotos de sete das oito vítimas pernambucanas do vôo Gol 1907. O outdoor vai permanecer até o dia 10 de outubro como uma homenagem aos mortos e uma cobrança por justiça.   "Às vezes nem o espaço do céu é suficiente para o tamanho da estupidez humana", diz ainda o cartaz, assinado como uma homenagem dos familiares e parentes às vítimas do Recife. A frase se refere à tese de que os pilotos norte-americanos do jato Legacy teriam errado e sido os responsáveis.   Na segunda-feira, 29, às 19 horas, na Igreja Nossa Senhora de Fátima, no bairro central da Boa Vista, os familiares participam de uma missa de ação de graças em memória das vítimas - Marcelo Rigueira Torres, 50 anos, Maria das Graças Bezerra Rickli, 58, Júlio César do Nascimento Mendes, 33, Felipe Carvalho da Sulva, 23, Ana Maria Caminha Maciel, 49, Janine Abucater Padilha, 30, Ana Cláudia Teixeira de Brito, 32 e Carlos Antonio de Souza Júnior, 28.   Pai de Felipe, Jorge Feliciano, presidente da regional estadual da Associação de Familiares e Amigos das Vítimas do vôo 1907, destacou o desgaste dos familiares e a insatisfação com a demora nas investigações, nas punições, nos esclarecimentos do que realmente ocorreu e na indicação dos culpados. "A Aeronáutica nos prometeu resposta com um ano e até agora nada", afirmou. Segundo ele, a maioria dos parentes entrou com ação indenizatória, como forma de punir os culpados.   (Com Angela Lacerda, de O Estado de S.Paulo)

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