Após 31 anos, filhas descobrem que foram trocadas no hospital

Início de tudo foi aula de biologia, onde garota descobriu que sangue era incompatível com o dos pais no Rio

Talita Figueiredo, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2008 | 20h43

O descuido de uma maternidade de Campos dos Goytacazes, no norte do Rio de Janeiro, há 31 anos provocou uma profunda crise em duas famílias, depois que Ana Cláudia Maciel e Míriam Anderson descobriram que foram trocadas momentos depois do nascimento. A confirmação se deu na segunda-feira, 3, quando elas receberam o resultado de um exame de DNA feito na última sexta-feira. Mírian, que mora desde a infância em Campo Grande (MS) e Ana Cláudia se conheceram na semana passada e ainda tentam lidar com a triste situação. A desconfiança de que não era filha biológica de seus pais, surgiu quando Mírian, aos 17 anos, descobriu numa aula de biologia que, tendo sangue do tipo B não poderia ter nascido de Elisa e Holmes Anderson, ambos de sangue do tipo O. "Foi muito confuso, pensei que era adotada. Meus pais garantiram que não. Fiz exames para saber se meu tipo sanguíneo era realmente tipo B, busquei orientação médica, mas na época não era tão fácil fazer DNA. Minha mãe não aceitava falar sobre isso, meu pai ficou achando que eu era filha de outro homem e nossa vida tornou-se muito difícil", conta Mírian, que trabalha como corretora de imóveis.  Depois de anos tentando esquecer a história, ela viu o assunto voltar à tona no ano passado, numa reunião familiar. Os pais já haviam se separado, "tendo muito a ver com a situação inexplicada", e a corretora de imóveis resolveu tirar a história a limpo. "Mais uma vez meu pai começou a dizer que suspeitava de uma traição porque minha mãe sempre fugia desse assunto. Acho que ela tinha medo de descobrir que eu não era filha dela. Para resolver isso de uma vez por todas, resolvi pagar um exame de DNA e descobri que não era filha de nenhum dos dois", lembra. Mírian contratou um advogado e entrou na Justiça para descobrir que outros bebês nasceram entre os dias 26 e 28 de setembro de 1977, na Beneficência Portuguesa da cidade. A demora gerou uma ansiedade que aumentou quando o hospital informou que não possuía mais os prontuários. A corretora decidiu ir a Campos, foi entrevistada em um programa de televisão local e contou sua história. Entre os moradores que assistiram ao programa, estava a dona de casa Ana Cláudia Maciel, que até então era criada como filha única e biológica por Ana Maria Maciel. "Desconfiei porque nasci no mesmo dia e resolvi procurá-las. Quando vi a Elisa, minha mãe biológica, e a semelhança grande comigo não tive muitas dúvidas. Em casa, ficamos chocados, abalados, ninguém espera por isso, mas é a verdade: sou filha de uma outra pessoa. Mas meu amor pelos meus pais, os que me criaram, não muda em nada", diz em tom de conformidade. O mesmo diz Mírian, que na hora de abrir o exame de DNA pensou até em desistir. Sobre o futuro, nenhuma das duas faz planos. A corretora de imóveis volta nesta quarta-feira, 5, para Campo Grande e acha que algum tipo de contato manterão, "porque são do mesmo sangue", mas daí a "assimilar", é outra história. Ambas afirmaram, no entanto, que vão processar a maternidade. "Minha mãe, a que me criou, está em choque. Estamos revoltados com o hospital, é uma maldade, uma crueldade o que fizeram conosco e com nossos pais. Vamos processar, porque essa irresponsabilidade não pode ficar impune". Até a noite desta terça-feira, 4, nenhum membro da direção do hospital havia retornado as ligações da reportagem.

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