Após 43 anos, Favela do Jd. Edite é removida

Após ameaças do tráfico e intervenção da GCM, últimas famílias deixaram a área para construção de residencial

Diego Zanchetta, O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2009 | 00h00

O velho armário de madeira e duas sacolas lotadas de roupas foram os últimos pertences do pipoqueiro José Marcos Santana, de 50 anos, retirados do sobrado de cinco cômodos. O imóvel onde ele e a mulher moraram havia três décadas e criaram os seis filhos foi o último a ser demolido ontem, no Jardim Edite. Após 43 anos, a favela que contrastava com os prédios envidraçados do Brooklin e tinha a Ponte Octavio Frias de Oliveira de fundo desapareceu. A área de 130 mil m² foi cercada ontem com estacas de cimento."Depois de tanta resistência do tráfico, acho que foi uma vitória sem precedentes", comemorou a promotora Cláudia Bere. Há quatro meses, quando faltavam pouco mais de cem famílias para serem removidas, traficantes que mantinham um ponto de venda de drogas na favela chegaram a sequestrar uma assistente social da Secretaria Municipal da Habitação e um líder comunitário. Os marginais também passaram a ameaçar os moradores que aceitaram a bolsa-aluguel, como mostrou o Estado em março.Nos últimos três meses, a Polícia Militar e a Guarda Civil Metropolitana (GCM) passaram a apoiar os trabalhos de desocupação. Três suspeitos de tráfico foram presos. Das 834 famílias removidas para conjuntos habitacionais na região do Campo Limpo, na zona sul, 278 vão voltar para o condomínio que será construído na área de onde a favela foi retirada - como é o caso do pipoqueiro e da mulher, os últimos a deixarem ontem a favela. Apesar de ter resistido à mudança durante quase dez anos e acionar a Justiça, Santana acabou aceitando a remoção e agora acha que as coisas vão melhorar."Vou ter meu apartamento aqui, só vou ficar um tempo no Campo Limpo. No final das contas, tudo o que aconteceu foi bom", comemorou o pipoqueiro, que conheceu a mulher, Maria Aparecida, de 51 anos, ainda adolescente, em um forró na favela, no fim dos anos 70. "Cheguei aqui com 7 anos. Adoro esse lugar", disse.O prazo inicial para o retorno de parte dos antigos moradores é de um ano, segundo a Sehab. "A licitação deve terminar até outubro e as obras começam em novembro. Até junho ou julho do ano que vem devem estar prontos", afirmou Elisabete França, superintendente da Sehab. "Queremos também montar dentro do condomínio um restaurante-escola, como o da Câmara Municipal. A região tem muitos hotéis e pode absorver esse tipo de mão de obra." O investimento nos dois conjuntos que serão construídos na área será de R$ 30 milhões. Haverá 32 apartamentos de 39 m² e 208 de 50 m².COMEMORAÇÃOPara quem sempre viveu em uma das áreas mais nobres do Brooklin e tinha como vizinha uma favela com quase mil famílias , a conclusão da desocupação ontem parecia algo irreal. "Realmente é a realização de um sonho. Passamos maus bocados aqui, com o tráfico principalmente. Mas foi um final feliz, até mesmo para os moradores", considera a aposentada Carlota Goes, de 79 anos, moradora da Rua Araçaíba. Outro vizinho, que não quis ser identificado, lembra de filas de carros em sua rua, a George Ohm, de usuários esperando para comprar droga. Uma praça localizada atrás da antiga favela, também será repaginada nos próximos três meses.

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