Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

'Após 6 meses da intervenção no Rio, componente militar é aparentemente único a engajar-se'

Comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, criticou a falta de participação de governos e sociedade civil no combate à criminalidade no Rio

Tânia Monteiro , O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2018 | 12h37
Atualizado 24 Agosto 2018 | 16h45

BRASÍLIA - O comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, criticou nesta sexta-feira, 24, a falta de integração de outros setores da administração pública e da sociedade civil no combate à criminalidade no Rio de Janeiro. Em cerimônia comemorativa ao Dia do Soldado, o general aproveitou seu discurso da Ordem do Dia para fazer o desabafo.

"Passados seis meses, apesar do trabalho intenso de seus responsáveis, da aprovação do povo e de estatísticas que demonstram a diminuição dos níveis de criminalidade, o componente militar é, aparentemente o único a engajar-se na missão", disse o general.

"Exigem-se soluções de curto prazo, contudo nenhum outro setor dos governos locais empenhou-se com base em medidas socioeconômicas, para modificar os baixos índices de desenvolvimento humano, o que mantém o ambiente propício à proliferação da violência", completou.

Segundo ele, apesar de todos admitirem que as leis vigentes devam ser modificadas com urgência, "continuamos a proceder com naturalidade em face à barbárie de perder mais de 63.000 vidas por ano".

Villas Bôas disse ainda que vivemos uma "era de conflitos e incertezas, na qual os individualismos se exacerbaram e o bem comum foi relegado a segundo plano". "Perdemos a disciplina social, a noção de autoridade e o respeito às tradições e aos valores, o que nos tornou uma sociedade ideologizada, intolerante e fragmentada. Estamos nos infelicitando, diminuindo nossa autoestima e alterando nossa identidade."

O general destacou que somos um grande País, mas que "não consegue vislumbrar um projeto para o seu futuro, nem, tampouco, identificar qual o papel a exercer no concerto das nações. Para superar tantos desafios, tornou-se frequente o emprego das Forças Armadas em missões variadas, como as de garantia da lei e da ordem, atendendo prontamente ao chamado de diversas Unidades da Federação".

Ele lembrou as atuações das Forças no Rio Grande do Norte, no Espírito Santo e, particularmente, no Rio de Janeiro, onde, segundo ele, "a população alarmada deposita esperanças em uma intervenção que muitos, erroneamente, pensam ser militar".

O comandante do Exército lembrou das mortes dos soldados durante operações no Rio de Janeiro e se queixou do fato de a morte deles não terem tido tanta repercussão como outros casos recentes, numa referência indireta à morte da vereadora Marielle Franco, sem, no entanto, citar o seu nome. Segundo ele, as mortes tiveram repercussão restrita, "que nem de longe atingiram a indignação ou a consternação condizente com os heróis que honraram seus compromissos de defender a Pátria e proteger a sociedade". "Vivemos tempos atípicos. Valorizamos a perda das vidas de uns em detrimento das de outros", completou.

Ao final de seu discurso, o general disse que é chegada a hora de dizer um basta ao "diversionismo, à radicalização retrógrada e à fragmentação social". "É preciso que busquemos a união, com espírito público, sacrifício e ética. O Brasil tem pressa para reencontrar sua identidade." 

Em nota oficial, o governo fluminense afirmou que, "desde que foi implantado o Gabinete da Intervenção federal, o Estado, com suas forças de segurança, atua de forma integrada com as forças federais, atendendo todas as solicitações que lhe são feitas". O comunicado lista ainda todas as contribuições feitas pelo governo aos esforços da intervenção.

Na quinta-feira, 23, foi enterrado o corpo do soldado Marcus Vinicius Viana Ribeiro. Ele foi o terceiro militar morto durante uma operação da intervenção federal no Rio. Ele foi baleado na perna, na segunda-feira, 20, durante uma megaoperação das forças de segurança nas comunidades do Complexo do Alemão, do Complexo da Maré e do Complexo da Penha. Na mesma operação das Forças Armadas outros dois militares foram mortos, o cabo Fabiano de Oliveira Santos e o soldado João Vicktor da Silva. Os dois foram enterrados na terça-feira, 21, no Cemitério de Engenheiro Pedreira, em Japeri, na Baixada Fluminense.

No mesmo evento, o presidente Michel Temer lembrou a morte dos soldados. "Nessa ocasião, voltamos nosso pensamento muito especialmente ao cabo Fabiano de Oliveira Santos, ao soldado João Viktor da Silva e ao soldado Marcus Vinícius Viana Ribeiro, mortos há apenas poucos dias. Seu sacrifício não será em vão. Cumpriremos a tarefa imperiosa de recompor a ordem pública no Rio de Janeiro", afirmou o presidente.

A cerimônia comemorativa condecorou 350 pessoas com a medalha do Pacificador. Entre os agraciados, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin, que estava presente à cerimônia. 

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