Acervo Biblioteca Nacional
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Após a gripe espanhola, o País assistiu ao carnaval da euforia

Para foliões e estudiosos, a festa de 1919 poderá ser superada pela primeira pós-covid-19; pandemia virou tema de marchinhas e celebração foi narrada por escritores anos depois

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2021 | 05h00

Faltavam ainda 15 dias para o que o Estadão chamava de “reinado legítimo do Momo”, mas São Paulo e outros pontos do País já tinham desistido de esperar a data oficial. Depois de uma pandemia que matou milhares de brasileiros em poucos meses, o carnaval de 1919 foi intenso, eufórico e virou história e inspiração para alguns dos principais autores nacionais. 

“É natural esse anseio de alegria e de prazer que se nota entre o nosso povo: não tivesse ele a descontar tantos sustos, tantos aborrecimentos, tantas tristezas, que só o carnaval – especialmente para todos os males – poderá curar”, dizia uma reportagem publicada por este jornal em fevereiro daquele ano. “A alegria transbordou até altas horas, triunfalmente, como uma enorme vingança da vida imortal contra os horrores que a quiseram escurecer”, apontou outra, de março.

O carnaval que sucedeu a chegada da gripe espanhola é considerado por alguns como o maior da história do País. Entre adeptos e estudiosos da folia, há muitos que acreditam que ele somente poderá ser superado pelo primeiro pós-covid-19.

Diferentemente da pandemia do novo coronavírus, a da gripe espanhola teve a maioria dos casos no País concentrada em um período mais curto, majoritariamente entre setembro e novembro de 1918, vitimando até o presidente eleito, Rodrigues Alves, e levando o sistema funerário e de saúde ao colapso.

No mundo, estimativas apontam até 50 milhões de mortes, sem contar os óbitos na 1.ª Guerra Mundial, encerrada no mesmo ano. “Há relatos de corpos nas ruas, gente que enterrou os parentes nos quintais”, lembra o historiador Ricardo Augusto dos Santos, da Casa de Oswaldo Cruz, da Fiocruz. “Era uma realidade muito diferente da atual (de modo geral), em relação à higiene e às condições sanitárias. As pessoas moravam em locais insalubres, sem ar e sem sol.”

Como a pandemia se alastrou rapidamente, o cotidiano já estava próximo da normalidade no começo de 1919, o que ajuda a explicar a realização do carnaval naquele verão. “Todas as classes de alguma forma brincaram, fosse no subúrbio, fosse na zona sul. Quem tinha dinheiro alugava carro para fazer cortejo”, destaca o historiador. Havia blocos, desfiles de carros, chuva de confetes e brincadeiras com lança-perfume, dentre outras folias. 

Em um artigo sobre o tema, Santos chegou a comparar a alegria dos brasileiros no fim da pandemia com os relatos de celebrações na Europa depois da peste negra. A própria máscara que se tornou símbolo do carnaval veneziano, por exemplo, com um longo bico, remete à que era utilizada para tratar os pacientes com a doença.

No Brasil, a tragédia foi lembrada em marchinhas e, até mesmo, em alegorias. “Não há tristeza que possa/ Suportar tanta alegria/ Quem não morreu da espanhola/ Quem dela pode escapar/ Não dá mais tratos à bola/ Toca a rir, Toca a brincar”, dizia o trecho de uma canção publicada em jornal em janeiro, resgatada por Santos.

Uma das fotos mais conhecidas daquele carnaval, publicada na revista Careta, é de um carro alegórico com uma grande chaleira, com a frase “chá de meia noite”, em referência a um boato de que uma bebida era administrada aos doentes para acelerar a morte durante a epidemia.

Naquele ano, também ocorreram os primeiros desfiles dos tradicionais Cordão da Bola Preta, que persiste até hoje, e do Bloco do Eu Sozinho, que perdurou por mais de 50 carnavais e era composto exclusivamente pelo jornalista Júlio Silva.

Mais adiante, aqueles momentos históricos foram narrados por escritores brasileiros, como Nelson Rodrigues, Carlos Heitor Cony e Ruy Castro, que destacaram como aquele festejo marcou também uma liberação dos costumes.

“Poucas semanas antes, estávamos a milímetros da morte. Agora já eram as vésperas de 1919. Quem sobreviveu não perderia por nada aquele carnaval”, narrou Castro em Metrópole à Beira-mar: o Rio Moderno dos Anos 20.

Já Rodrigues destacou o que considerava uma excessiva liberação sexual. “Foi de um erotismo absurdo. Daí a sua horrenda tristeza. Disse não sei quem que o desejo é triste. E nunca se desejou tanto como naqueles quatro dias. A tristeza escorria, a tristeza pingava, a alegria era hedionda”, escreveu no Memórias: A Menina sem Estrela.

'Vai ser uma catarse'

Com os desfiles cancelados no Rio e indefinidos em São Paulo e outras cidades, ainda não se sabe se 2021 celebrará a folia. Algumas escolas de samba escolheram enredos ao longo do ano passado, mas ainda em uma realidade em que se imaginava a pandemia mais curta. Uma delas, a Viradouro, justamente elegeu o carnaval de 1919 como enredo, ao destacar que “não há tristeza que suporte tanta alegria”.

Para o carnavalesco Milton Cunha, um dos coordenadores do Observatório de Carnaval, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a próxima folia será ainda mais emblemática e intensa do que a que sucedeu a gripe espanhola. “Vai ser uma catarse”, define. “O pessoal está muito se questionando (na pandemia), ‘o que fiz da minha vida, o que aproveitei’... Esse questionamento vai enlouquecer todo mundo.”

Para ele, assim como em 1919, haverá referências à pandemia nas ruas, em fantasias, alegorias, músicas e mais, como já ocorre agora com a música Bum Bum Tam Tam, por exemplo, que até ganhou versão com o nome Vacina Butantan

Para ele, um dos momentos que mais vai emocionar será a lavagem da Sapucaí, que precede os dias de desfiles no Rio. “Acho que vai ter todo um culto, uma mística. Também acho fácil (a pandemia) entrar nos enredos, como um grito de guerra antes da escola entrar. Vai ser uma constante celebração, um ‘xô, covid’. Como o carnaval tem essa coisa de queimar o Momo na quarta-feira de cinzas, na falta do rei, toca fogo na covid.”

Ele também lamenta pela falta que a celebração terá especialmente para os envolvidos com o carnaval das escolas de samba. “Significa que as comunidades pobres não vão ter suas vitrines. Elas se expressam através disso. Não tendo carnaval, ficam mudas por um ano.”

Por estar em diversos grupos de carnaval em redes sociais, Cunha percebeu um aumento da nostalgia com a chegada da data, com compartilhamento intenso de imagens de desfiles passados. “O Rio está triste, está em compasso de espera. Sempre que chega o calor, a gente está nos barracões. É uma comemoração pelo zap, pela internet, pelas redes, que está longe de ser alegria. A cidade perde essa identidade.”

Quando Brasil teve carnavais adiados, foliões foram duas vezes às ruas

O governo tentou, mas o adiamento dos carnavais de 1892 e 1912 teve efeito reverso: a população saiu às ruas na data antiga e na nova. Com a pandemia da covid-19, espera-se que o mesmo não se repita em 2021, a primeira vez que a folia é suspensa em mais de 100 anos, e com a possibilidade de sequer ocorrer.

No caso do século 19, a motivação também foi sanitária, com o entendimento de que o verão seria uma época propícia à transmissão de doenças, como a febre amarela. Um texto publicado no Estadão em 1892 comentou sobre decisão (de transferir a celebração para junho), trazendo o entendimento comum na época de que o inverno seria a “estação mais saudável do ano” e que "diversas enfermidades cujos efeitos de devastação nesta capital invariavelmente recrudescem depois das folias do Momo”.

O historiador Ricardo Augusto dos Santos, da Casa Oswaldo Cruz, explica que, naquela época, ainda havia pouco conhecimento sobre a transmissão de diversas enfermidades infectocontagiosas. “Havia a percepção de que tinha algo no ar que não fazia bem”, comenta.

Em 1912, a transferência da data para abril foi motivada pelo luto, no caso a morte do Barão de Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira. Grande parte da população ignorou a decisão. Isso já era esperado, como disse ao Estadão o então chefe de polícia do Rio à época, ao citar que "alguns grupos carnavalescos insistiam em sair". 

Dias depois, o jornal noticiou que, mesmo com chuva, o Rio teve carnaval, com batalha de confete e jogo de lança-perfume, "com enorme concorrência" e "havendo animação até alta hora da noite". "As calçadas estavam apinhadas de famílias, movendo-se os veículos com grande dificuldade."

Cenário não muito diferente foi descrito no segundo carnaval daquele ano, em abril, ao se falar do movimento na Avenida Rio Branco, também no Rio, que estava "repleta de povo, correndo com grande estusiasmo". "É extraordinário o movimento de carros e automóveis".

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