Após acareação, situação de tenente envolvido em mortes piora

Com isso, procuradores cancelaram a entrega de denúncia contra os 11 militares e devem fazê-lo até segunda

Marcelo Auler , O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2008 | 20h01

A situação do 2º tenente do Exército Vinicius Ghidetti de Moraes Andrade complicou-se nesta sexta-feira, 27, no Inquérito Policial Militar, instaurado pelo Comando Militar do Leste (CML) para investigar a participação de 11 militares na entrega de três jovens do Morro da Providência a traficantes do Morro da Mineira, no último dia 14. Nas mãos dos marginais, os jovens Welligton Gonzaga da Costa, David Wilson Florenço da Silva e Marcos Paulo Rodrigues Campos foram barbaramente torturados e assassinados. Veja também:Procuradoria denunciará 4 militares por homicídio no RioMutirão acaba com disputa entre prefeitura e Estado em obrasPolícia diz ter identificado assassinos dos jovens da Providência Na esfera da Justiça Federal, os procuradores da República que anunciaram para sexta-feira a apresentação da denúncia contra os onze militares, adiaram esta entrega. Segundo anunciou a assessoria da Procuradoria da República, ela pode ser entregue a um juiz de plantão neste sábado, ou na segunda-feira. Nesta sexta, eles não se pronunciaram e ficaram aprontando o documento. O presidente do IPM, capitão Peçanha, realizou nesta manhã a acareação do tenente com o capitão Laerte Ferrari Alves e com o soldado Fabiano Elói dos Santos. Pelo relato da promotora da Justiça Militar, Hevelize Jourdan Covas, o resultado piorou a situação do tenente. Na primeira acareação, o capitão Ferrari - maior patente de serviço naquele sábado - reafirmou, diante do subordinado, que deu ordem expressa para que o tenente soltasse os jovens imediatamente. Segundo a promotora, "o tenente expressamente não entendeu que a ordem era para ser cumprida logo, ali na frente, ainda no Morro da Providência". Na acareação da tarde, o oficial que comandava os outros 10 militares insistiu que o soldado Fabiano tinha evitado que um dos jovens fugisse do Morro da Mineira. Diante da negativa do soldado, o tenente, ainda conforme o relato de Hevelize, titubeou; "eu não tenho bem certeza, pode não ter sido ele". Ao contrário do entendimento dos procuradores da República, que acham que os 11 militares sabiam que os jovens seriam levados aos traficantes, a promotora da Justiça Militar acha que apenas três deles tinham noção disto: o tenente Gidhetti, o sargento Leandro Maia Bueno, que foi quem, com o fuzil atravessado nas costas, entrou no morro para falar com os traficantes, e o soldado José Ricardo Rodrigues de Araújo, que indicou o caminho para o morro. Durante a acareação, o tenente tentou voltar atrás no que dissera nos depoimentos anteriores, quando assumiu querer apenas dar um susto nos rapazes que o teriam desacatado. "Ele quis responsabilizar o sargento Maia e o soldado Rodrigues pela idéia, mas quando eu questionei sobre o depoimento anterior, ele não se explicou. Ele está perturbado", disse a promotora. Hevelize confirmou que Gidhetti mandou parar o caminhão no Sambódromo, momento em que questionou os jovens se estavam arrependidos. Diante da resposta de um deles - "Não, estou gostando" - o tenente comentou com o soldado Eduardo Pereira de Oliveira, que dirigia o caminhão: "Caguei. Vamos em frente". Ao contrário da informação passada ao Estado por um procurador da República, a promotora da Justiça Militar explicou ontem que em nenhum momento o tenente anunciou que estaria levando os jovens para entregá-los aos traficantes. Por isto é que ela acredita que os demais militares, além do oficial, do sargento Maia e do soldado Rodrigues, só foram ter noção do que aconteceria quando viram Gidhetti levando os rapazes até os traficantes, momento em que apertou a mão de um deles.

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