Ed Ferreira/Estadão
Ed Ferreira/Estadão

Após agressão em bar, gays protestam na Asa Sul, em Brasília

Ativistas dos direitos dos homossexuais se reuniram em frente ao estabelecimento onde o caso aconteceu para um 'beijaço'

LISANDRA PARAGUASSU, O Estado de S. Paulo

10 Outubro 2014 | 20h08

BRASÍLIA - Dois dias depois do final do primeiro turno de uma eleição em que, pela primeira vez, os direitos dos homossexuais foram tema de debate, mais um crime de cunho homofóbico, dessa vez na capital federal, mostra que o assunto não é apenas teoria. Na noite da última terça-feira, três rapazes homossexuais e a irmã de um deles foram agredidos a garrafadas, socos e cadeiradas em um bar na Asa Sul, zona central de Brasília, depois que Rayan de Souza e seu namorado, Thayrone Rocha, se abraçaram.

Na noite desta sexta, depois da agressão ganhar repercussão na internet, cerca de 400 ativistas dos direitos dos homossexuais se reuniram em frente ao bar Simpson's, onde o caso aconteceu, para um "beijaço" em protesto. Os jovens fecharam a rua e se deitaram no chão para protestar contra os casos de homofobia no DF.

Rayan contou que desde a sua chegada ao bar Simpson''s com Thayrone, a irmã, Jheni Souza, e outro amigo, Yuri Rodrigues, seis homens que estavam na mesa ao lado começaram a ofendê-los e fazer piadas. "O bar estava lotado. Pedimos uma mesa e um dos garçons colocou uma ao lado desses caras. Desde o início eles começaram as piadas. Quando eu e Thayrone voltamos do banheiro, a coisa piorou, começaram a usar palavrões", lembra Rayan.

Depois de duas horas de agressões verbais, a irmã de Rayan irritou-se e foi até a outra mesa pedir ao grupo que parasse. "Eles a empurraram e roubaram sua jaqueta. Quando nos levantamos para defendê-la, eles vieram para cima da gente. Quebraram uma garrafa na minha cabeça e deram uma cadeirada no Yuri. Parecia que estavam só esperando um motivo para começar a pancadaria", diz. Depois que vizinhos de mesa apartaram a briga, os jovens, com ajuda de garçons, refugiaram-se atrás do balcão do bar e chamaram a polícia, já que o grupo ainda os esperava no lado de fora. Só foram embora com a chegada dos policiais, que não chegaram a registrar ocorrência alegando que o outro grupo já não estava no local. 

Rayan afirma que uma gerente do bar os tentou expulsar do lugar depois de terminada a briga, o que a assessoria do Simpson''s nega. Na manhã desta sexta, o bar pôs uma faixa com os dizeres "Somos contra qualquer tipo de preconceito. Diga não à violência".

Levados ao hospital pelo Samu, Rayan levou pontos na boca e no braço e Yuri ainda está internado, esperando uma cirurgia no maxilar, quebrado em dois pontos. Desde a agressão, nem Rayan nem Thayrone saíram mais de casa. Apenas nesta sexta foram até a 1ª Delegacia de Polícia do Distrito Federal para prestar depoimento, depois que, usando as imagens da câmera de segurança do bar, identificaram quatro dos seis agressores. Dois também prestaram depoimento nesta sexta. Nenhum deles têm antecedentes criminais.

A polícia alega que o caso ainda está em identificação e não garante que o crime tenha tido motivações homofóbicas, mas Rayan não tem dúvidas. "Nós fomos atacados porque somos homossexuais", afirma, explicando que, apesar de ter sofrido preconceito, essa foi a primeira agressão. "Estou com medo. Hoje vai ser o primeiro dia que vou sair de casa".

Mesmo se for caracterizada homofobia, os homens que agrediram os jovens só poderão ser processados por agressão. Até hoje o Congresso não aprovou o projeto que tipifica a homofobia como crime. Pressionado pela bancada evangélica, o Palácio do Planalto não deu prioridade à proposta.

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