Após apelo de Amorim, Líbano solta brasileiro

Justiça ainda investiga fraude em passaporte; pediatra ameaça processar governo do país

Denise Chrispim Marin, O Estadao de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 00h00

Libertado ontem por ordem direta do governo do Líbano, o pediatra brasileiro Mohamad Kassen Omais, de 45 anos, não escapou do processo judicial por adulteração em seu passaporte nem da suspeita de ligação com grupos terroristas. Omais foi preso no sábado passado, ao desembarcar em Beirute, e passou seis dias na prisão. Sua libertação foi atribuída ao apelo feito anteontem pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, ao ministro de Justiça do Líbano, Charles Rizk, em Buenos Aires. O embarque de Omais e de sua família ao Brasil está previsto para o dia 28.Omais foi liberado após 20 minutos de uma audiência com o juiz de instrução encarregado de inocentá-lo ou de enviar o processo a um tribunal militar, na manhã de ontem. Nessa reunião, estava acompanhado por seu advogado, o libanês Ayad Fares. A rigor, o juiz optou por uma solução intermediária - o pagamento de um valor em caução, os compromissos de enviar relatório sobre viagens ao exterior nos últimos dez anos e de comparecer diante da Justiça libanesa, caso seja convocado."O caso não foi arquivado. Mas tampouco houve uma acusação formal, que levaria Omais a julgamento por um tribunal militar. O processo continua", explicou o cônsul-geral do Brasil em Beirute, Michael Gepp. "A libertação foi um gesto político do governo libanês, que foi sensibilizado pelo ministro Amorim", completou.Segundo o embaixador, ainda não foi esclarecido o autor da adulteração do passaporte libanês do pediatra, que tem dupla cidadania e se apresentara às autoridades de imigração, no dia 16, com seu passaporte brasileiro. A fotografia original do pediatra foi trocada pela de outra pessoa, que o utilizou para viagens à Síria. Recentemente, o passaporte foi encontrado queimado pela polícia. Nos depoimentos, Omais teria dito que o deixara na casa dos pais, no Líbano, em 2001.PROCESSOOmais diz que pensa em processar o governo libanês por danos morais sofridos durante a semana que esteve detido. Durante esse período, o brasileiro passou por pelo menos três presídios de Beirute. As informações são da Agência Brasil. Segundo o médico, apesar de não ter sofrido agressões físicas, ele conta que foi tratado aos gritos e empurrões. "Agressão física propriamente não sofri, mas agressão moral. Era tratado com gritaria e empurrões, uma falta de respeito grande com o ser humano, uma agressão psicológica", declarou. Em uma semana, Omais perdeu mais de cinco quilos. Ele contou que muitas vezes não tinha água, comida, nem via o sol. Segundo ele, a higiene dos presídios também era precária. ALÍVIOFamiliares e amigos de Omais comemoram ontem sua libertação. "Estamos mais tranqüilos e ficamos realmente emocionados pelo Mohamad", disse o irmão Ali. Por telefone, Omais informou à família que não pretende voltar ao Líbano tão cedo, embora seus pais continuem morando lá.

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