Após ataque de fúria, médico é afastado no ES e reclama de condições de trabalho

Ginecologista demonstrou arrependimento por ter danificado unidade de saúde, mas reiterou as reclamações sobre falta de material e estrutura no local

Vinicius Rangel, Especial para O Estado

16 Maio 2018 | 21h49

VITÓRIA - "Se eu quiser examinar a sua amídala, eu tenho que comprar um picolé e tirar o palito para usá-lo". A frase foi dita pelo médico ginecologista Aurédio José do Couto de 71 anos, que está denunciando a precariedade do serviço público oferecido aos profissionais de saúde e também aos moradores de Cariacica, no Espírito Santo. 

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Na noite da última segunda-feira, 14, o profissional teve um ataque de fúria na Unidade de Saúde do bairro Jardim América. Revoltado com as condições precárias de trabalho no espaço, derrubou móveis e jogou documentos ao chão. Dois dias após o episódio, o médico voltou ao local para realizar os atendimentos e recebeu a notícia de que estava afastado da função.

Um vídeo gravado por um dos pacientes mostra o ginecologista durante o momento de fúria. Funcionários da unidade ficaram assustados com a situação e pediam calma ao médico. A gravação circulou por todo o País essa semana. Aurédio disse que as condições de trabalho são precárias e isso teria motivado o ataque.

"A minha revolta foi em cima de material. Não ofendi ninguém. Se você for lá hoje para tirar uma ficha, vai ver o tratamento que é dado ao paciente. Eu entro todo o plantão na minha sala e não tem um termômetro para ver a temperatura, não tem um estetoscópio para escutar o pulmão, nem mesmo um aparelho para medir pressão da pessoa. Se eu quiser examinar a sua amídala, eu tenho que comprar um picolé e tirar o palito para examinar você. Eu queria que você fosse na sala e olhasse onde me puseram", disse o médico.

O ginecologista demonstrou arrependimento por ter danificado algumas cadeiras da unidade de saúde. Segundo ele os objetos já estavam em péssimas condições de uso. O médico afirma que procurou a secretaria de saúde do município para falar sobre os problemas, mas não teve retornos.

"Os bancos para os pacientes sentarem enquanto aguardam as fichas ali, eles não olham. As pessoas que vêm de madrugada para pegar ficha, como eles ficam? Ontem choveu e tinha tanta gente molhada ali. Será que eles olham isso? Eu procurei a secretária de saúde há uns meses para poder falar da situação dessa unidade básica de saúde, básica", disse o profissional". 

Mesmo abalado com toda a situação, o médico disse que vai continuar atuando na região. Ele explica que teve apoio da população. O ginecologista não esperava que fosse acontecer todo esse conflito. Em seus 46 anos de profissão, ele  nunca deixou de atender um paciente. "A população estava lá me defendendo, mandando eu fazer mais. Eu não sou nenhuma criança, eu tenho 46 anos de medicina, será que eu mereço isso? Será que a população merece isso? Eu nem penso em mim. Esse enfrentamento não vai acabar agora. Mesmo que eles me tirem daqui eu vou continuar a minha luta", finalizou o médico.

 

Patrimônio público. Um dia após danificar equipamentos da Unidade de Saúde de Jardim América, em Cariacica, o médico Aurédio foi afastado de suas funções pela secretária municipal de saúde Stefane Legran. A responsável pela pasta disse que foi aberto um processo administrativo para investigar o caso. A Polícia Civil vai chamar o médico para prestar depoimento e ele poderá responder pelo crime de dano ao patrimônio público.

“As decisões foram tomadas logo após o fato. Fizemos um boletim de ocorrência do caso e abrimos um processo administrativo para apurar toda essa situação. Esse médico estaria insatisfeito com algumas mudanças que ocorreram na unidade. Mesmo assim, ele é um ótimo profissional e vamos analisar tudo com muito cuidado”, explicou a secretária.

Sobre a falta de equipamentos médicos denunciada pelo ginecologista, Legran disse que desconhece. Segundo ela, não falta nenhum acessório para atendimento. Ela afirma que o local possui diversos problemas estruturais. “Passamos sim, por vários problemas de estrutura no local. É um prédio antigo, estrutura antiga e estamos aos poucos reformando o local que atende diversos moradores. Essa a unidade mais antiga e não podemos parar para reformar. Tenho esses problemas no lugar, mas falta de equipamentos médicos não há”, frisou Stefane.

“Infelizmente, apesar da nossa batalha diária para abrir os olhos da população e dos gestores públicos a respeito, principalmente, da violência contra o médico, os problemas seguem acontecendo”, disse em nota o Sindicato dos Médicos do Espírito Santo.

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