Após ataques, polícia do Rio põe mais 20 mil homens nas ruas

O sistema de segurança para as festas de réveillon no Rio será reforçado. Após os 12 ataques que atingiram delegacias, postos da PM e um supermercado em Itaboraí e fizeram 18 mortos, o comandante-geral da Polícia Militar, coronel Hudson de Aguiar, e o chefe de Polícia Civil, delegado Ricardo Hallak, anunciaram, em entrevista coletiva, nesta quinta-feira, um plano de segurança, que não inclui a ajuda federal oferecida pelo Ministério da Justiça nesta quinta-feira. Contudo, as autoridades não admitem que o plano foi feito em função dos ataques.Aguiar explicou que a PM atuará em integração com a Polícia Civil. A Polícia Militar empregará 14.234 soldados (aumento de 20% em relação a 2005), enquanto a Polícia Civil contará com mais 6.500 homens (sendo cerca de 3 mil na Capital, 500 na Baixada Fluminense e 3 mil no interior), para reforçar o atendimento às ocorrências nas delegacias e carceragens. Ao todo, a PM utilizará 1.307 viaturas, 370 motos, dois helicópteros, duas lanchas e dez reboques.Somente na orla, serão utilizadas 134 viaturas do tipo Gol, 51 do tipo Blazer, 28 motos, dois reboques e nove viaturas de praia. O patrulhamento na areia será realizado por grupamentos com a missão de evitar roubos e furtos, coibir o uso de drogas, encaminhar crianças extraviadas aos seus responsáveis e evitar manifestações que possam provocar tumultos. O esquema também contará com 32 torres de observação em Copacabana, Leme, Ipanema e Leblon, sendo 17 no 19º BPM (Copacabana) e 15 no 23º (Leblon).Entre os dias 30 de dezembro e 1 de janeiro, as comunidades Morro Dona Marta, Parada de Lucas, Vigário Geral, Chapéu Mangueira e do Complexo da Maré ficarão ocupadas, para evitar possíveius confrontos entre bandidos. Algumas comunidades, como Pavão-Pavãozinho, Cantagalo e Morro do Estado, já contam com policiamento feito por grupamentos de Policiamento em Áreas Especiais (GPAEs). As ocupações no Vidigal e na Rocinha serão mantidas. De sua parte, Hallak garantiu que 92 viaturas vão às ruas após às 18 horas desta quinta-feira para evitar novos ataques, e cercarão as principais favelas. "Vamos buscar a paz a qualquer preço", disse Aguiar. "Não vai ser dessa vez que vamos recuar. Não temos medo e vamos honrar com nosso compromisso com a população". Aguiar alertou a população para não acreditar em projetos milagrosos para enfrentar os novos ataques. "Não existe por exemplo, de você contratar policiais para ajudar em reforço, até porque o servidor não pode receber de duas fontes públicas". "Temos que contar com os recursos que a gente possui, com a nossa polícia militar e civil. É esse o nosso planejamento. Não estamos fazendo nada milagroso".Ajuda oferecidaApós os ataques, o Ministério da Justiça colocou os órgãos de segurança do governo federal, inclusive a Polícia Federal, à disposição do governo do Estado do Rio para enfrentar a onda de ataques desencadeada por facções criminosas. Contudo, a governadora do Estado, Rosinha Matheus, já descartou a ajuda federal.O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que está em São Paulo, cancelou o seu recesso de feriado de final de ano para coordenar as ações desses órgãos. Para acompanhar todas as etapas da investigação, foi montada uma equipe que está de plantão na sede do Ministério. As primeiras informações davam conta de que as autoridades de segurança do Estado do Rio vinham sendo alertadas desde o dia 26 deste mês sobre os preparativos que estavam sendo feitos pelos criminosos para desencadear a onda de violência contra ônibus e alvos policiais. De acordo com o que apurou a área de inteligência do governo federal, a onda de violência no Rio era para ser muito pior: um grande "banho de sangue" às vésperas do Ano Novo, no momento em que a cidade recebe cerca de 500 mil turistas do mundo inteiro.MotivosO prefeito Cesar Maia (PFL) também ofereceu dinheiro ao governador eleito Sergio Cabral Filho (PMDB) para o pagamento da segunda jornada dos policiais militares, com o objetivo de dobrar o efetivo nas ruas. Para Maia, essa seria a solução para a crise de segurança que atinge o Rio.O fato é que as causas dos ataques geraram divergências entre as autoridades. O secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Roberto Precioso, disse que os ataques foram motivados pela insatisfação dos presidiários com a troca de governo. O secretário de Administração Penitenciária, Astério Pereira dos Santos, discordou de Precioso e afirmou que os atentados são resultado da união das facções criminosas contra o avanço das milícias - organizações formadas por ex-policiais, acusadas de expulsar traficantes de favelas.O prefeito não acredita na versão do Secretário de Segurança Pública, Roberto Precioso, de que os ataques foram motivados pela mudança de comando na Secretaria de Administração Penitenciária. "Essas ações vinham ocorrendo pontualmente e vêm crescendo. E a explicação está na atuação das milícias, que ampliam a ocupação nas comunidades, e expulsam o tráfico", afirmou. Para o prefeito, a mensagem dos criminosos foi clara. "O que se pretende com os ataques é fazer com que a polícia não-fardada interrompa a ocupação. Esse fato (atuação das milícias) é extremamente grave porque tanto de um lado (tráfico) quanto do outro (milícia) não há lei".Comparações com São PauloO coronel evitou comparações com são Paulo, dizendo que houve um colapso no sistema penitenciário paulista, com 258 atentados num só dia e que não pode haver comparação com o Rio, onde a onda de violência foi, segundo ele, mais "tranqüila". "Aqui não foi dessa forma: o sistema está funcionando, o comércio está funcionando. Aqui aconteceu de uma forma e teve nossa resposta em tempo imediato, lá é outra história", disse o comandante da PM. Ele pediu que a população informe sobre o paradeiro dos criminosos, pois eles não merecem complacência.A transferência de líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa que atua principalmente em São Paulo, resultou, em maio, em uma série de ataques e numa megarrebelião em presídios no Estado. Ao todo, foram registrados 293 ataques, deixando 111 mortos e 43 feridos. Exatos dois meses após a primeira onda de ataques, o PCC levou novamente o terror às ruas do Estado. Em menos de uma semana, foram atacados 174 alvos, causando a morte de 11 pessoas. Em agosto, mais uma onda de ataques, a terceira em menos de seis meses. Os prédios do Ministério Público e da Secretaria da Fazenda tiveram as entradas destruídas por bombas. Além de bases da polícia, sofreram ataques 22 ônibus, 34 bancos e 12 postos de gasolina. Desta vez, foram 185 ataques e oito mortos.

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