JF Diorio / Estadão
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Após cinco anos em queda, mortes no trânsito têm alta de 23% em 2017

De cada quatro acidentes registrados no Brasil, três envolvem motocicletas, aponta pesquisa exclusiva do DPVAT; segundo levantamento, custo de óbitos e de casos de invalidez permanente na economia foi de quase R$ 200 bilhões no ano passado

Renato Jakitas e Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2018 | 22h00

O Brasil voltou a registrar aumento no número de mortes relacionadas ao trânsito. Em 2017, foram 41.151 vítimas de acidentes envolvendo veículos automotores, ante 33.547 em 2016, uma alta de 23%. O dado, obtido com exclusividade pelo Estado via DPVAT (seguro obrigatório de automóveis), interrompe uma sequência de cinco anos na queda da letalidade nas ruas, avenidas e estradas do País. A última alta, observada em 2012, havia sido de 5% – um salto para 60.752 óbitos na ocasião. 

Com isso, a violência do trânsito provocou um impacto econômico de R$ 199 bilhões no ano passado, ou 3,04% do Produto Interno Bruto (PIB) do País. O valor corresponde ao que seria gerado pelo trabalho das vítimas, caso não tivessem se acidentado, segundo dados do Centro de Pesquisa e Economia do Seguro (Cpes), órgão da Escola Nacional de Seguros. O fator que mede a perda da capacidade produtiva é chamado de Valor Estatístico da Vida (VEV), ou seja, o quanto cada brasileiro é capaz de produzir em vida.

De acordo com os dados do DPVAT, o número de mortes em 2017 seguiu na contramão das estatísticas totais com cobertura do seguro, que registra apenas os casos com óbitos e sequelas permanentes. Nos últimos três anos, o volume de acidentes caiu pela metade, saindo de 763,4 mil em 2014 para 384 mil no ano passado. 

A explicação, para especialistas, é que a última recessão econômica afetou as vendas e reduziu o fluxo de automóveis nas ruas – o que colaborou para a redução dos acidentes. Com menos dinheiro no bolso, o brasileiro inflou a frota de motocicletas, mais baratas e, ao mesmo tempo, mais vulneráveis.

Assim, ao longo do ano passado, 90,5% das vítimas do trânsito estavam na fase economicamente ativa e mais de 74% dos acidentes envolveram motocicletas, fazendo com que 59% dos acidentados fossem os próprios condutores. “Nossa experiência nesse ramo aponta que a moto, quando envolvida em um acidente, tem potencial de gravidade maior e, algumas vezes, as cidades não estão preparadas para lidar com a expansão desse modal”, aponta o superintendente de Sinistros da Seguradora Líder, Arthur Fróes, responsável pelo DPVAT.

O professor Carlos Alberto Bandeira Guimarães, do Departamento de Transportes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), concorda. Para ele, a questão também envolve a falta de fiscalização. “Nas cidades do interior, nos Estados do Norte e Nordeste, é comum ver cenas de pessoas dirigindo motocicleta de chinelos, sem capacete, às vezes até sem documento de habilitação”, afirma. 

O especialista aponta que as maiores variações observadas nos acidentes de 2017, em comparação com o ano anterior, foram no Nordeste e no Centro-Oeste, com alta de 30% no número de casos fatais ou com invalidez permanente. A Região Sudeste apresentou um crescimento de 23%, com destaque para dois Estados – Rio de Janeiro (34%) e São Paulo (20%).

“A motocicleta, apesar de passar a imagem de ser um veículo mais simples, exige a carteira A e, na realidade, demanda muito mais técnica para ser conduzida. Mas é comum ver moto passando entre os corredores de carros, cruzando passarelas de pedestre, na contramão. E um acidente leve de motocicleta pode ter consequências graves. Não tem medidas (obras viárias) que resolvam isso.”

Diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, Dirceu Rodrigues Alves destaca que essa falta de fiscalização acontece em áreas com uma alta densidade de motos. “Temos aí a facilidade da aquisição dessas motocicletas. É um veículo mais barato, de grande mobilidade e muita utilidade em várias áreas: de tocar o gado a fazer comércio. E há oferta muito grande nessas regiões (Norte, Nordeste e Centro-Oeste).” 

Garupa. No Recife, a técnica em enfermagem Maria Augusta Bezerros, de 26 anos, conhece bem a história. Em junho do ano passado, ela saía de uma festa na garupa do então marido quando passaram em um cruzamento com o semáforo amarelo. Um carro em alta velocidade bateu na lateral da moto. 

Maria Augusta passou três meses no hospital e ainda hoje sofre com as consequências do acidente. “Quebrei a tíbia, a fíbula e fiquei com sequelas: tendinite, artrite, artrose, derrame na circulação e um pequeno cisto no tornozelo esquerdo”, conta. A pernambucana recebeu R$ 4,5 mil do seguro DPVAT. Atualmente, impossibilitada de trabalhar, recebe auxílio-doença e, segundo ela, o laudo médico pede aposentadoria por invalidez.

“A motocicleta, que é a solução de muitos transtornos no trânsito, está tirando de circulação uma boa parte da população economicamente ativa”, afirma a economista do Centro de Pesquisa e Economia do Seguro (Cpes) Natália Oliveira. “Ainda não temos uma consciência para a utilização desse veículo. Faltam educação, fiscalização e respeito”, diz.

Segundo estudo do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), o País tinha 13,2 milhões de motos em circulação no ano passado, 39% mais que há oito anos, em 2009. 

Procurado, o Ministério da Cidades não se pronunciou sobre o estudo.

/ COLABOROU MARCELO MONTANINI, ESPECIAL PARA O ESTADO 

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‘Ele queria fazer faculdade. Tinha a vida pela frente’

Mãe que perdeu filho caçula em acidente de moto agora teme pelo primogênito; metalúrgico passou por nove cirurgias

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2018 | 22h17

Em uma caixa de papelão, Ana Rosa Antunes, de 54 anos, ainda encontra cópias de currículos que o filho caçula não teve tempo de enviar. “Ele ia fazer Enem, queria fazer faculdade. Tinha saúde e a vida pela frente”, diz a auxiliar de limpeza. Os planos de Erick Antunes foram interrompidos por um acidente em novembro do ano passado. 

O jovem, de 25 anos, foi lançado da moto que pilotava quando um carro virou à esquerda, sem dar seta, em uma avenida na zona leste de São Paulo. O motorista fugiu. Antunes teve lesões no tórax e na cabeça e morreu no hospital.

A mãe conta que o jovem levou quatro anos para comprar a moto à vista, um sonho desde a adolescência. Mas a usou por apenas quatro meses. Tirava a moto da garagem só para passear e, durante a semana, ia de ônibus ao trabalho – fazia manutenção de ar-condicionado. 

Desde quando viu o filho pela última vez, Ana Rosa perdeu o sossego. “Não tem dia que eu passe sem lembrar”, diz ela, que agora teme pelo primogênito, também motociclista. “Ouço falar de acidente e a pressão sobe. Marca muito perder um filho.”

O metalúrgico Mauro Santos, de 37 anos, teve mais sorte. Sobreviveu por pouco a uma batida, mas se movimenta com um andador, precisa da mulher para tarefas simples e não tem previsão de voltar à ativa. 

No caminho para o trabalho, em janeiro, um carro o derrubou da moto na Radial Leste. Santos teve quatro paradas cardíacas, fraturou o fêmur, quebrou dedos das mãos e lesionou o pescoço e o joelho. “Disseram que apareci do nada, mas faltou a motorista olhar o retrovisor.”

Depois de nove cirurgias, ele finalmente está em casa com a mulher e os dois filhos, de 5 e 18 anos, mas viu a renda da família cair sem poder fazer nada além da fisioterapia. “Minha perna não obedece. Não tenho como trabalhar. São férias forçadas.”

Em nota, a Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes informou queda no total de vítimas na capital paulista no último ano e disse priorizar medidas para reduzir acidentes. 

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