Após confronto no Recife, governo endurece discurso contra manifestantes

Secretário diz que vandalismo e pessoas mascaradas não serão permitidos; movimento atribui violência em ato de quarta à polícia

Angela Lacerda, O Estado de S. Paulo

22 de agosto de 2013 | 14h45

RECIFE - Pernambuco não vai mais permitir depredações e vandalismos nas ruas e nem pessoas mascaradas nos protestos de rua. O recado foi dado nesta quinta-feira, 22, em entrevista coletiva, no Recife, pelo secretário estadual de Defesa Social, Wilson Damázio, um dia depois de confrontos entre a Polícia Militar e manifestantes da Frente de Luta pelo Transporte Público (FLTP), no centro da cidade. Um ônibus incendiado, prédios públicos e privados depredados, pânico e correria nas ruas, fechamento do comércio e aulas suspensas por universidades localizadas na área foram o resultado de uma manifestação pelo passe livre que teve início tranquilo na tarde da quarta-feira, 21.

"Doravante o Batalhão de Choque acompanhará todos os protestos e irá fazer revistas em pessoas mascaradas ou que portem mochilas", afirmou o secretário, ao lembrar que até agora a polícia se mantinha à distância, apenas observando as manifestações, orientada a proteger seus participantes. "A ação da polícia tem de ser proporcional aos atos praticados", afirmou. "O movimento mudou de rumo, extrapolou limites e não podemos ficar passivos."

Damázio lembrou que o artigo 5 da Constituição garante as manifestações de rua, mas não permite que as pessoas escondam sua identidade. Por isso, não serão mais permitidas pessoas mascaradas.

Ele atribuiu a violência aos Black Blocs, grupo de inspiração anarquista que teria se infiltrado no movimento. "Há possível influência de gente de São Paulo". Para ele, o movimento pelo passe livre é pacífico. Não houve prisões.

Inquérito foi aberto para identificar os envolvidos nas depredações. De acordo com o chefe da Polícia Civil, Oswaldo Moraes, algumas pessoas já foram identificadas. "Foram mais de 14 crimes cometidos, entre eles o de provocar incêndio colocando em risco a vida de outras pessoas, que pode resultar em seis anos de prisão", disse Moraes.

"Um ato do povo". Integrante da Frente de Luta pelo Transporte Público, Renato Barros contestou o secretário de Defesa Social. "A violência foi uma resposta direta à opressão do Estado", retrucou, sem aceitar que o vandalismo seja atribuído aos Black Blocs. "A manifestação foi um ato do povo, aberto a quem quiser participar".

Segundo Barros, a violência teve início depois que "a polícia do governador Eduardo Campos (PSB) chegou dando um cavalo de pau e atirando com balas de borracha" quando os manifestantes estavam próximos ao Cinema São Luiz - prédio de 70 anos, patrimônio da cidade, que teve expositores de vidro quebrados por pedras. "Dois garis foram atingidos, um companheiro foi atingido na testa, uma moça levou um soco no rosto de um policial", denunciou Barros, ao frisar não ser líder da FLTP, que não tem lideranças.

"Há uma desconexão entre a posição do secretário e a realidade das ruas", avaliou, ao garantir que a FLTP só vai deixar as ruas quando conquistar a implantação do passe livre.

Ele reafirmou que o movimento foi "traído" pelo presidente da Câmara de Vereadores do Recife, Vicente André Gomes (PSB), que teria descumprido o acordo de dar 15 dias para o movimento conseguir 13 assinaturas de vereadores visando à abertura de um CPI dos transportes. Antes do prazo acordado, segundo ele, o presidente da Câmara tentou acabar com a ideia da CPI com base em um parecer de um procurador da Casa.

"O parecer é de caráter consultivo, não determinante", observou o manifestante, ao garantir que a FLTP se mantém na busca das 13 assinaturas e lembra que o passe livre constou da plataforma de campanha do prefeito do Recife, Geraldo Julio (PSB).

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