Após crise, Julio Neves elege sucessor no Masp

O secretário-geral, João da Cruz Vicente de Azevedo, não teve concorrentes e foi escolhido por unanimidade

Rodrigo Pereira e Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

04 de novembro de 2008 | 00h00

Depois de 14 anos à frente de um dos maiores acervos da América Latina, em sete mandatos, o arquiteto Julio Neves, de 76 anos, deixa a presidência do Museu de Arte de São Paulo (Masp) para dar lugar ao advogado João da Cruz Vicente de Azevedo, de 83 anos. O novo presidente foi eleito por unanimidade pelos 41 sócios da instituição que participaram na tarde de ontem de uma assembléia geral. A mudança, porém, não deixa de ser apenas uma formalidade. Há 12 anos na diretoria da instituição, Azevedo é secretário-geral da última gestão de Julio Neves e foi candidato único nesta eleição. As crises enfrentadas pelo Masp e quem é o presidenteEsta é a sétima vez consecutiva que não há oposição para a diretoria comandada por Julio Neves. A reportagem do Estado pediu para consultar a ata da eleição, mas, segundo a Assessoria de Imprensa, o documento é sigiloso até ser registrado, o que só deve ocorrer em dez dias. Conhecido por possuir extenso acervo de obras do século 18, com um gosto especial pelo pintor paulista Benedito Calixto, o novo presidente não quis dar entrevistas e disse apenas que vai dar continuidade aos projetos do antecessor - incluindo o início da construção de um anexo em 2009."Estou aqui há 40 anos e não tenho vontade de deixar o museu", disse Neves, que continuará como conselheiro do Masp. "Cumpri a minha palavra de deixar a presidência, mas vou continuar colaborando." Indagado sobre o legado dos seus 14 anos, gabou-se. "Vou ficar aqui até amanhã falando das coisas boas que fizemos. Estamos escrevendo até um livro para mostrar tudo isso. Acho que a gente deixa uma marca nacional e internacional do Masp, um legado imenso para as próximas gerações."Dos cerca de 70 associados do Masp, 41 apareceram para votar, incluindo o empresário João Dória Jr., a escritora Lygia Fagundes Telles, Violeta Jafet e o deputado federal José Aristodemo Pinotti. Apesar da candidatura única, a longa gestão de Neves e a eleição de Azevedo é alvo de críticas. "Mais uma vez fica caracterizada a falta de transparência no processo de escolha do sucessor", disse o ex-embaixador do Brasil em Washington e ex-conselheiro do Masp, Rubens Barbosa. Segundo a Assessoria de Imprensa do Masp, a instituição tem dívidas da ordem de R$ 5 milhões - opositores de Neves garantem que o montante é de pelo menos R$ 30 milhões. A crise financeira já teve contornos dramáticos, como o corte de energia elétrica em maio de 2006. De acordo com o Masp, a receita atual vem da bilheteria, da captação de recursos e dos quase R$ 100 mil mensais da Prefeitura, "suficientes para pagar só a energia elétrica". Além da dívida, Azevedo vai herdar um processo na 32ª Vara Cível. A ação, que pedia o afastamento de toda a atual diretoria, corre em segredo e aborda as ações de Neves em seus sete mandatos consecutivos.

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