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Após furto de telas, Masp repensa o futuro

Polêmico, mas elogiado por sócios, Julio Neves diz que só fica no comando até fim do mandato, em novembro

Ana Paula Scinocca e Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

12 de janeiro de 2008 | 00h00

Em meio à crise aberta com o furto de duas telas do Masp, levadas no dia 20 e recuperadas terça-feira, algumas perguntas eram recorrentes: Quem é o responsável pelo museu? A quem ele pertence? É do governo?Pelo estatuto, o Masp é uma "associação de direito privado sem fins lucrativos". Mas nos meandros dessa definição está o núcleo de poder do museu, que pouca gente conhece inteiramente além do arquiteto Julio Neves, presidente do Masp desde 1994. Figura polêmica, Neves é criticado pelos governos municipal e estadual, mas elogiado por sócios do museu.Neves comanda a diretoria, que responde ao Conselho Deliberativo. Mas a principal instituição do Masp são os sócios vitalícios. Para ser sócio - 65 pessoas têm esse status hoje - não basta querer. A diretoria indica os nomes, aprovados em assembléia geral. Os sócios são, na esmagadora maioria, pessoas muito conhecidas, como Lily Marinho, viúva de Roberto Marinho, da Rede Globo; empresários como Emilio Odebrecht; banqueiros como Olavo Setúbal e Pedro Moreira Salles; e empresas como Bradesco, Belgo Mineira, TIM e Pirelli.Segundo o estatuto, só podem virar sócios "pessoas físicas ou jurídicas que, pelo tempo de dedicação ao Masp, assim como por serviços prestados ou doações efetuadas, tenham alcançado essa condição especial". Mas muitas vezes predominam outros critérios. Entre os sócios recentes estão dois filhos do presidente: Roberto Franco Neves e Paulo Franco Neves. Procurado, Julio Neves não deu entrevista. Sócio há menos de um ano, o industrial Fuad Mattar acha que o furto das telas O Lavrador de Café , de Portinari, e O Retrato de Suzanne Bloch, de Picasso, trouxe uma "lição gratuita, mostrou que o patrimônio ali é fantástico". Ele elogiou a atual gestão. "O Julio é aplicado, cuida do museu com competência."Mas muitos associados acreditam numa mudança no comando do museu nas eleições de outubro. O ex-ministro da Saúde Adib Jatene, sócio e conselheiro, avalia como "muito boa" a gestão atual. Questionado se votaria no arquiteto em outubro, afirmou que o próprio Neves tem dito que não quer continuar no cargo."Entendo que o ciclo de controle do museu pelo Julio Neves está chegando ao fim natural, isso ele mesmo já disse", afirma o embaixador Marcos Azambuja, no Masp desde 2006. "Acho que, diante das dificuldades financeiras que a instituição enfrentou, até que ele se saiu bem."A crise do Masp já teve contornos dramáticos, como o corte de energia, por falta de pagamento, em 2006. Segundo o assessor de Imprensa do Masp, Paulo Alves, "a receita do museu vem da bilheteria e da captação de recursos, além dos quase R$ 100 mil mensais da Prefeitura, suficientes para pagar a energia". A Prefeitura informou que repassou no último ano R$ 125 mil mensais.Conselheiro do Masp, o ex-secretário de Estado do Ensino Superior, José Aristodemo Pinotti, defende a abertura da gestão para os governos estadual, municipal e federal. "A Prefeitura é dona do prédio e é interessante que faça parte do conselho. Os governos do Estado e federal têm ajudado e vão ajudar mais. Não vejo problema em ampliar (a participação na gestão)." Indagado sobre a gestão de Neves, Pinotti disse considerá-la "boa". Ao fim da entrevista, pediu para alterar a resposta para "excelente".O empresário Manoel Pires da Costa, que preside a Bienal de São Paulo, é conselheiro e diretor do Masp. Ele acredita que uma associação com o poder público - estadual, municipal ou federal - só será possível mediante uma troca. "É preciso ter certeza de que haverá investimento no museu."Também conselheiro, José Mindlin disputou em 1994 e perdeu, por apenas 1 voto, a presidência para Neves. "Já virei a página e, portanto, nada falo sobre o museu."Cerca de 2 mil pessoas foram ontem ao Masp, segundo estimativa da direção, o dobro do registrado na sexta-feira, quando o museu reabriu - ele ficou 21 dias fechado após o furto das telas. O Masp funciona hoje das 11 às 18 horas. O ingresso custa R$ 15,00.

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