Após inspeção, avarias em carros

Donos de veículos a diesel reclamam de check-up ambiental e cobram explicações de secretaria

Fábio Mazzitelli, O Estadao de S.Paulo

01 de novembro de 2008 | 00h00

A Comissão de Trânsito e Transporte da Câmara Municipal de São Paulo aprovou um pedido de explicações à Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) sobre a inspeção dos veículos movidos a diesel, iniciada em maio. O documento teve como base 117 assinaturas de proprietários que relataram à Câmara avarias nos veículos. A lista é formada, sobretudo, por perueiros escolares. Há queixas de quebra de cabos de aceleração e de embreagem, trinca no radiador e motor fundido. Em alguns casos, foram feitos boletins de ocorrência. A maioria atribui os danos ao teste de aceleração máxima, etapa principal da inspeção. Para medir a emissão de poluentes, seguindo as normas do Conselho Nacional do Meio Ambiente, o teste prevê dez ciclos de aceleração e leva o motor ao limite de giros permitido pelo fabricante. "Meu carro é 2007 e está com 44 mil (quilômetros rodados). Aceleraram tanto que trincou o radiador", afirma o perueiro escolar Fernando Barreto Filho, de 27 anos. O Fiat Ducato já foi reprovado duas vezes.Donos de microempresa de transporte escolar, Marcelo Coelho, de 40 anos, e Diomedes dos Santos, de 48, chegaram em dois carros para fazer a inspeção e saíram em três. A Topic de Coelho, ano 1998, teve de deixar o local guinchada. "Durante o teste, estourou o cabo de aceleração, quebrou a embreagem e estourou a bomba d?água. Aí, viraram para o meu cunhado e disseram ?agora, você tem de tirar o carro?", contou Santos.Apesar de o veículo já ter 10 anos de uso, eles garantem que fazem manutenção preventiva. E citam o trabalho no transporte escolar como argumento. Coelho gastou R$ 500 e ficou um dia sem trabalhar.No caso de Orivaldo Correia Barreto, de 59 anos, também transportador escolar, a avaria atribuída ao processo de inspeção veicular ambiental foi ainda mais grave: fundiu o motor da Topic. O prejuízo, calculado pelo proprietário, pode ter chegado a R$ 10 mil e a ocorrência foi registrada no 93º Distrito Policial (Jaguaré).As reclamações tornaram-se pedido de explicações oficial no dia 23. "Essas avarias já estão causando medo em proprietários de vans. Não sou contra a inspeção, mas isso tem que ser esclarecido", diz o vereador Abou Anni (PV), presidente da comissão.O diretor de Segurança Veicular da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), Harley Bueno, diz que os relatos de danos podem indicar erros. "O operador tem de ter, no mínimo, nível técnico para saber condenar um veículo antes de começar a acelerar", diz. Outro especialista na área, Luso Ventura, destaca, porém, a necessidade da manutenção preventiva adequada e afirma não ser possível relacionar diretamente o teste aos danos sem conhecer melhor os casos.A SVMA, que fiscaliza a inspeção, diz que eventuais prejuízos causados durante o processo são, por contrato, de responsabilidade da Controlar. A empresa responsável pela inspeção diz que não há casos de avarias em função do teste e atribui os relatos à falta de manutenção preventiva e ao "desgaste dos veículos". "A Controlar repudia qualquer acusação de que submete os veículos a uma aceleração exagerada. Salienta que o teste obedece às especificações e determinações do fabricante, do Conama e da Associação Brasileira de Normas Técnicas", diz, em nota. A empresa respondeu a duas solicitações da Câmara e, no dia 18, recebeu vereadores no centro de inspeção.O coordenador do Programa de Inspeção na Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, Volf Steinbaum, disse que ainda não teve tempo de responder às questões dos vereadores, mas garante que a fiscalização é feita e eventuais dificuldades fazem parte da implementação do programa, que, em 2009, inspecionará toda a frota da capital. Em 2008, estão obrigados a passar pela inspeção 315 mil veículos a diesel. Dos 18.753 veículos inspecionados até ontem, quase 39% não passaram no primeiro teste. O percentual de veículos que precisam de mais de duas inspeções está em 24%. A partir daí, o proprietário tem de pagar R$ 52,73.

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