Após interdição e sem pompa, Cidade da Música abre para grande concerto

Cesar Maia chorou durante apresentação inaugural; prefeito disse que somente o tempo poderá julgar a obra

Márcia Vieira, O Estadao de S.Paulo

26 de dezembro de 2008 | 00h00

Não foi uma festa com pompa e circunstância como sonhou o prefeito do Rio, Cesar Maia (DEM), mas ontem, diante de pouco mais de cem pessoas e emocionado, ele inaugurou a Cidade da Música, o maior complexo cultural construído na cidade há décadas. A abertura do espaço na Barra da Tijuca, zona oeste, estava programada para o dia 18 deste mês, mas havia sido adiada por falta de licença do Corpo de Bombeiros.Maia chorou quando a Banda da Guarda Municipal tocou um pot-pourri de músicas que enaltecem o Rio e La Vie en Rose. No discurso, tentou responder às críticas que o projeto tem recebido. "Esta é uma intervenção que só o tempo vai julgar. A decisão se torna mais difícil quando se toma sem entender em que prazo vai ter retorno."A programação prossegue hoje com concerto da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), só para convidados, às 21horas, na Grande Sala Maestro José Siqueira, a única concluída e liberada. Ontem, durante ensaio da OSB e após a inauguração, Maia com a batuta da Banda da Guarda Municipal brincou de regente. Hoje, com regência de Roberto Minczuck, a OSB tocará concertos vienenses. No programa, O Danúbio Azul, Valsa do Imperador e Vozes da Primavera, de Johann Strauss.Foram R$ 518 milhões gastos em cinco anos. A obra mais polêmica de Maia, que deve demorar pelo menos um mês para ser concluída e vai consumir mais R$ 40 milhões, colocará o Rio no mesmo patamar das grandes metrópoles européias no cenário da música clássica. O projeto arquitetônico é do francês Christian de Portzamparc, autor da Cité de la Musique, em Paris.A Cidade da Música é grandiosa em todos os sentidos. A começar pelo tamanho. Ocupa uma área de 95 mil metros quadrados. Tem 87 mil m² de área construída. O prédio está dez metros acima do solo, sustentado por pilotis. De longe, parece flutuar. As paredes, em forma de velas de barco, são finas. Duas lajes de cerca de 18 mil m² sustentam a estrutura.A nova sede da OSB, orquestra patrocinada pela Prefeitura do Rio, é o maior hall sinfônico da América Latina. Com aproximadamente 2.738 m², a Grande Sala pode ser utilizada com 1.800 lugares (500 a mais do que a Sala São Paulo) para apresentações de orquestras sinfônicas ou com 1.300 lugares para ópera. Além da grande sala, a Cidade terá um espaço para música de câmara, com 500 lugares. Os outros blocos abrigam sete salas de ensaio, dez de aula, camarins, sala eletroacústica, três cinemas, midiateca, restaurante, cafeteria e lojas.Maia, que passa o cargo ao ex-aliado Eduardo Paes (PMDB) no dia 1º, garante que deixa em caixa recursos suficientes para finalizar as obras. "Falta pouca coisa a ser feita e o dinheiro está garantido", disse. Nas eleições, a obra foi criticada pela maioria dos candidatos por causa do investimento e da viabilidade financeira. Só de custos fixos de manutenção e funcionamento, o complexo cultural consumirá cerca de R$ 1 milhão por mês. Na concorrência para terceirizar sua gestão, não houve pretendentes. "Errei neste ponto. Não temos no Brasil expertise de gestores privados para equipamento de cultura. Se me derem de presente a Cidade da Música para eu administrar, em uma semana eu acabo com este déficit de R$ 1 milhão."O pianista Arnaldo Cohen, com sólida carreira internacional, não tem tanta certeza desse sucesso. "Tudo vai depender de como ela vai ser administrada", disse, por telefone, dos Estados Unidos. "Agora que já se gastou tanto dinheiro tem de botar para funcionar", disse Cohen, que considera importante a construção do espaço.O maestro Isaac Karabtchevsky também defende a obra. "Talvez não agora, mas a Cidade da Música será, sem dúvida, um marco para o Rio." Seu entusiasmo é com a acústica. "Christian de Portzamparc não se preocupa apenas com a forma, profunda e impactante, mas com a acústica, a razão de ser das grandes salas." A discussão não tirou o humor do prefeito. "A polêmica gera memorabilidade. Ninguém esquece de quem fez a obra." A lição, contou Maia, foi aprendida em 1996 com o ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf. Segundo ele, Maluf perguntou quem lembrava de uma determina obra. Ninguém. Por quê? "Porque foi uma obra tranqüila. Todo mundo era a favor. Nunca mais faço isso. Só faço obras polêmicas. Todos se lembrarão", disse Maluf a Maia. O prefeito do Rio aprendeu a lição.

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