Após isolamento, moradores de Angra tentam retomar rotina

300 famílias que vivem em Vila Velha só conseguem acessar pontos da cidade em barcos; mortos chegam a 52

Alfredo Junqueira, enviado especial do Estado,

05 Janeiro 2010 | 18h05

Morador do Morro do Carioca que terá sua casa demolida. Foto: Marcos Arcoverde/AE

 

ANGRA DOS REIS - Depois de quatro dias de isolamento, com falta de água e luz, os moradores do bairro de Vila Velha, em Angra dos Reis, tentam volta a sua rotina normal. Até o início da noite de segunda-feira, as 300 famílias que vivem na comunidade e nos condomínios de luxo da região, localizada a cerca de 10 quilômetros do centro do município, só conseguiam acessar os demais pontos da cidade com embarcações. Única via de ligação do bairro, a Estrada do Contorno estava totalmente interditada desde as primeiras horas do dia 1º, quando uma forte chuva castigou Angra dos Reis e acabou provocando 52 mortes com os dois encontrados nesta terça-feira, 5, na enseada do Bananal.

 

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De acordo com o diretor de Operações do Corpo de Bombeiros, Carlos Bonfim, as vítimas provavelmente são as turistas paulistas Emanuele Rodrigues Neto e Fernanda Muraca, que passavam as festas de fim de ano em uma casa alugada no balneário. Bombeiros e mergulhadores ainda procuram a última vítima do deslizamento, identificada por parentes como Roseli Marcelino Pedroso, de 34 anos.

 

O empresário Eike Batista é dono de uma mansão no bairro e chegou a ajudar os moradores que passavam dificuldades. O auxílio, no entanto, foi considerado irrisório por algumas pessoas da comunidade. Ele deu 300 garrafas de 1,5 litro de água, 50 sacos de gelos e disponibilizou uma de suas lanchas para o eventual transporte de moradores para a parte central da cidade, de acordo com informações da associação de moradores do local. "Foi muito pouco. Ele poderia ter ajudado mais a comunidade", queixou-se a vice-presidente da entidade, Vera Lúcia Duarte.

 

O presidente da associação, Alberto Campos de Deus, discordou e disse que o auxílio à comunidade neste episódio específico foi suficiente. Ele ressaltou, no entanto, que o empresário nunca ofereceu nenhum apoio para os moradores. "Pedi pessoalmente apoio para o Eike. Procurei seus empregados e ele me recebeu. Até o momento, seu auxílio foi suficiente sim. Mas a verdade é que ele nunca fez nada para a comunidade", reclamou Campos de Deus. Segundo o presidente da associação, a casa do empresário não sofreu com os mesmos problemas que afligiram a comunidade porque tem gerador próprio de energia.

 

Por toda a Estrada do Contorno o cenário é de destruição. Toneladas de terra e lama se acumulam na pista - uma via de mão dupla de 18 quilômetros que vai do centro da cidade até o bairro Encruzo da Enseada. Em muitos pontos, a estrada está aberta em meia-pista, para a passagem de apenas um veículo por vez.

 

Uma imensa pedra deslizou da encosta que margeia a via e parou a praticamente na porta da casa de Beatriz Heloísa Pinheiro Guimarães, 70 anos, prima do ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães. "Ele até ligou para a minha irmã, no Rio, para saber se eu estava viva", disse Beatriz, bem humorada. "Já sobrevivi a terremoto em Pequim, em 1976, não vão ser dessa pedra ou dessas chuvas que eu vou ter medo". Perto dali, numa residência humilde, o operador de roçadeira Moizes Nogueira, 50, lamentava os estragos que a chuva provocou na sua casa.

 

O local ficou cheio de rachaduras no piso e nas paredes, e foi condenado pela defesa civil do município. A recomendação, segundo Nogueira, é para sair de casa caso volte a chover. Ele tem passado os dias na casa de um sobrinho, também em Vila Velha. "Dá uma tristeza danada. Essa casa é fruto de anos de trabalho como caseiro, sempre ia juntado um dinheirinho, pagando um pouco. Agora, estava até reformando, mas todo o piso fico quebrado", lamentou Nogueira, que está ajudando nas operações de desobstrução de pistas desde o dia 1º.

 

Nesta terça, no Morro da Carioca, o Corpo de Bombeiros prosseguiu na busca do corpo da última pessoa desaparecida no deslizamento de terra que ocorreu na madrugada do dia 1º, Alessandra Emídio de Carvalho, 11. A operação para demolir parte das casas condenadas prosseguiu. A expectativa era que 20 imóveis fossem destruídos hoje.

 

TURISMO

 

As mortes e as cenas de destruição provocadas pelas chuvas em Angra está causando uma debandada de turistas em todo litoral sul do Estado do Rio. Segundo o presidente da seção fluminense da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), Alfredo Lopes, os hotéis de Angra dos Reis tiveram quase 40% das reservas canceladas desde a tragédia.

 

Na Ilha Grande, os cancelamentos chegaram a 55%. Houve cancelamentos também nos hotéis de Paraty, que sofre com as interdições na Rio-Santos (BR-101). "Hotéis que estavam com 98% dos quartos ocupados no réveillon viram a ocupação despencar para 30% no dia seguinte. É natural as pessoas anteciparem a saída no primeiro momento da tragédia, mas a comoção e a cobertura intensiva da mídia está dando a impressão errada de que áreas que não foram afetadas pela chuva são de risco", disse Lopes.

 

Para ele, a rede hoteleira da região, dos resorts do continente às pousadas da Ilha Grande, amargará um grande prejuízo este ano. "Havia uma expectativa muito positiva para o verão, mas agora a taxa média de ocupação em janeiro deve ficar abaixo de 50%, impactando a economia de toda região."

 

(Com Pedro Dantas e Alexandre Rodrigues, de O Estado de S. Paulo)

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