Após ''julgamento'', facção iria matar rivais de MT

PCC extrapolou sua ?jurisdição? e interferiu numa briga entre traficantes mato-grossenses, diz a Polícia Federal

Bruno Tavares, O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2008 | 00h00

O tribunal do PCC extrapolou sua "jurisdição" habitual e interferiu numa briga entre traficantes de Mato Grosso. Uma das "audiências", da qual participaram integrantes da cúpula da facção detidos em penitenciárias de segurança máxima do interior de São Paulo, foi interceptada em 23 de setembro pela Operação Aracne da Polícia Federal. Embora a disputa tenha ficado sub judice após a primeira rodada de discussões, policiais que acompanharam a investigação estão certos de que os infratores seriam punidos com pena de morte.Tudo começou em 13 de julho deste ano, após a apreensão de 1,2 tonelada de pasta base de cocaína. O carregamento, dividido em três caminhões, tinha como destino São Paulo, mas foi interceptado nas imediações de Cuiabá. O dono da droga era Jaquemar Bernardino da Silva, o Cabeludo, traficante mato-grossense ligado ao PCC e radicado em Santa Fé do Sul, no interior de São Paulo. Embora o negócio já estivesse há quase dez meses na mira da PF, Silva desconfiou que um desafeto dele, Admilson Sobrinho Tazzo, o Arrepiado, também integrante da organização criminosa paulista, o havia delatado.Silva não teve dúvidas: enviou dois pistoleiros - Geraldo Raimundo Gonçalves e João Martins de Oliveira - a Mato Grosso para assassinar Tazzo e dois comparsas dele identificados como Fabiano e Luciano, os Irmãos Vaqueiros. Os pistoleiros chegaram ao centro-oeste do País no início de agosto. Durante alguns dias, seguiram todos os passos de seus alvos. Entretanto, acabaram sendo notados e foram seqüestrados pelos homens que deveriam ser suas vítimas. A dupla foi levada para um canavial em Mirassol do Oeste e torturada até revelar quem havia sido o mandante da emboscada. Em seguida, Gonçalves e Oliveira foram mortos a pauladas.A quadrilha liderada por Tazzo, então, começou a organizar o revide. Em 15 de agosto, às 18 horas, homens encapuzados e armados com fuzis invadiram a fazenda de Silva e fizeram cinco pessoas reféns. Eles permaneceram no local por cerca de quatro horas, até a chegada do traficante chefe. Silva então foi rendido, levado para um matagal e assassinado a tiros.JULGAMENTODepois que souberam da morte de Silva, os demais integrantes da quadrilha telefonaram para a cúpula do PCC e realizaram uma teleconferência para saber quais providências seriam tomadas. "A primeira conversa foi longa, e diversos presos emitiram opiniões sobre a disputa", lembra o delegado Eder Rosa de Magalhães, encarregado pela Aracne. "Eles falaram com alguns ?torres?, que são os líderes da facção, mas nada ficou decidido naquele dia." A segunda "audiência" não foi interceptada, mas o delegado diz que, ao que tudo indica, os assassinos de Silva seriam mortos assim que retornassem para a capital paulista.Antes que deixassem Mato Grosso, no entanto, a Polícia Civil do Estado recebeu um alerta da PF e prendeu 13 pessoas - seis delas envolvidas diretamente no homicídio de Silva. Todos continuam presos, e as provas colhidas durante a Operação Aracne serão usadas pela polícia e pelo Ministério Público Estadual para pedir a condenação de todos os integrantes da quadrilha. O material deverá ser anexado ao inquérito aberto na esfera estadual na terça-feira.

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