Claudio Pinheiro/O Liberal
Claudio Pinheiro/O Liberal

Após a morte de 21 pessoas, medo predomina entre vizinhos de presídio no Pará

Confusão aconteceu depois de presos tentarem fugir do Centro de Recuperação Penitenciário do Pará III na última terça-feira, 10

Roberta Paraense, ESPECIAL PARA O ESTADO

11 Abril 2018 | 23h00

SANTA IZABEL - "Essa guerra já virou rotina por aqui. Os bandidos entram a saem da cadeia quando bem querem. Eles comandam, e nós é que ficamos presos em casa", desabafa Daiane da Silva, 26. A comerciante, que mora na rua São Luiz, atrás do Complexo de Santa Izabel, onde está instalado o Centro de Recuperação Penitenciário do Pará III (CRPP III), considerada cadeia de segurança máxima, resistiu ao medo e, hoje, abriu sua pequena banca de bombons e bebidas. No entanto, a rotina na região, depois do maior massacre ocorrido no complexo de Americano, que deixou um agente penitenciário, cinco detentos e 15 suspeitos mortos, predomina a lei do silêncio.

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Cercada de mata, a via situada na linha de fogo, é pacata e longe de qualquer indício de urbanização. Na tarde desta quarta-feira, 11, o movimento era pouco e quase não se viam pessoas e carros circulando na localidade. Daiane mora com mais cinco pessoas, entre elas, uma criança de 5 anos. "O medo  é de na troca de tiros alguém ser atingido ou um bandido entrar em casa para se esconder", comenta. Pela manhã, a polícia fazia buscas pela rua, principalmente, nos quintais cercados de vegetação.

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Na rua, está localizada a Escola de Municipal de Ensino Fundamental São Luiz. Por volta das 13h desta quarta-feira, 11, não havia ninguém no espaço e o portão estava trancado, assim como as casas nos arredores. Identificado apenas como Paulo, o vizinho do colégio, relata os momentos de medo durante a tentativa de resgate de presos, na tarde da ultima terça-feira, 10. "Mais de duas  horas de tiros e bombas. Depois, os carros de polícia e ambulâncias saindo e entrando. Algo assustador", diz o morador.

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Cruzando a rodovia BR-316, do outro lado do Complexo, na Vila de Americano, a lei que predomina é do silêncio. Os moradores estão trancados em casa e, por trás do portão, a dona de casa Maria Silva, de 42, dá poucas palavras. "Não podemos aparecer e nem falar muito. Aqui é rota de fuga, temos medo de rebelião e mais tiroteio", lamenta. Durante a tentativa de resgate dos presos, Maria diz ter sentindo impotência: "Sabe como é? Você não pode fazer nada. É desesperador", completa.

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Sem respostas. Após um protesto de 30 minutos, que bloqueou as duas vias da BR-316, às margens do complexo de Americano, familiares de detentos voltaram à porta do presídio e cobravam respostas. Aflitos, mães, pais e esposas, buscavam informações dos detentos. "É o Erik, é ele. Tenho certeza! Conheço esse short que ele está usando. Meu Deus, meu filho está morto", grita o pedreiro Natanael da Silva Prestes, 47, ao ver um dos vídeos do massacre que circulam na internet. "Eles não informam quem morreu, e quem está ferido. São presos, mas são gente também", completa.

Nas imagens, o rapaz, que Natanael aponta ser seu filho, Erik Sulivan Vaz de Souza, 22, aparece ao lado de outros corpos, deitados no chão, debaixo de muita chuva. Erik cumpre pena por assalto e está sob os cuidados da justiça há dois anos. A Superintendência do Sistema Penitenciário do Estado (Susipe) ainda não divulgou a lista dos mortos. O clima na porta da cadeia é tenso. Viaturas das polícias Civil, Militar e Federal entravam e saíam do complexo a todo instante.

A dona de casa Cassia Silva, 48, também foi em busca de respostas. "Fiquei sabendo pela televisão. Não sei o que aconteceu com o meu filho, se ele está vivo", chora a mãe de  João Carlos Silva, interno do bloco C.

Onze corpos dos mortos foram levados ao Instituto Médico Legal (IML) de Castanhal e dez para o IML de Belém. Na capital, a manhã no instituto foi agitada com o trânsito de familiares em desespero entrando e saindo em busca de informações. Os corpos estavam sendo identificados pelas digitais.

Tragédia anunciada. Em fevereiro deste ano, a unidade prisional tinha 52% mais presos do que a capacidade: havia 660 detentos para 432 vagas, diz o Conselho Nacional de Justiça - CNJ. As condições da prisão são "péssimas" e "inaceitáveis" para um presídio de segurança máxima, denuncia Ezequiel Sarges, presidente do SEPUB (Sindicato dos Servidores Públicos Civis do Estado do Pará). "Perdemos mais um agente de segurança para esta criminalidade", lamenta. O sindicato afirma que o CRPP III tem 101 agentes. "São números que não batem. Precisamos aumentar o efetivo", conclui.

A manicure Patrícia da Silva, 35, também estava em buscas de notícias de seu marido, Jeferson Moraes, 26, custodiado no Pavilhão C, onde foram lançados explosivos contra o muro do solário, e, logo após, ocorreu a carnificina. "Têm vídeos que mostram a crueldade da polícia. Alguns estavam apenas feridos e eles os mataram", denuncia.

Patrícia afirma que os presos são comandados por facções criminosas dentro e fora da cadeia, no entanto, há uma, com privilégios. "Até a visita de alguns presos são diferenciadas. Eles não foram atingidos", comenta. As regras seriam ditadas pelo Primeiro Comando da Capital - PCC.  Contudo, a tentativa de resgate não teria sido orquestrada por este grupo. "Ele não me falou o que ia acontecer, mas disse que poderia morrer, pois algo estava quase para acontecer ali de muito grave. E aconteceu", se emociona.

Celulares na cadeia. Mesmo com a vistoria nas dependências do complexo desde a tarde de terça-feira, 10, os custodiados ainda mantinham contato com os familiares do lado de fora, por meio de telefonemas e mensagens no celular. Na frente da reportagem, a esposa de um dos presos - que terá sua identidade preservada - falava, esta tarde, com um detento que estava no Pavilhão C. "Ele pegou dois tiros: nas costas e na mão, que ficou toda estourada", conta.

O preso está cumprindo pena por assalto à mão armada há 11 anos. "Aqui é uma prisão de castigo. Como ele fugiu, o colocaram neste inferno", lembra. O interno também enviou fotografias dos ferimentos à esposa. "Eles não deram atendimento médico, nada", conta.

Agentes penitenciários. A Superintendência do Sistema Penitenciário do Estado (Susipe) informa que de acordo com o último boletim médico divulgado, quatro servidores ainda continuam internados. Os agentes prisionais Daniel Lobato, Robson Nazareno e Edson Oliveira passaram por cirurgia e apresentam quadro estável; já o agente Rosivaldo Silva passou por exames e está em observação aguardando avaliação médica. Todos os demais agentes já foram liberados e passam bem.

A Coordenadoria de Assistência Social da Susipe informa que já começou a entrar em contato com as famílias dos presos para a identificação dos corpos que estão no IML de Castanhal e Belém. O corpo do agente prisional Guardiano Santana, de 57 anos, foi liberado e está sendo velado na capela do cemitério Parque das Palmeiras, no conjunto Cidade Nova I, em Ananindeua, na Metropolitana de Belém.

Respostas. Em nota, a assessoria de imprensa da Susipe informou que "as informações são improcedentes". Já a Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social (Segup) informa que nesta quarta-feira, 11, a Polícia Militar reforçou o policiamento preventivo no Complexo Penitenciário de Santa Izabel, em especial no Centro de Recuperação Penitenciário do Pará (CRPP) III.  Participam da ação todos os militares do Batalhão de Polícia Penitenciária (BPOP), vinculado ao Comando de Policiamento Especializado (CPE), além de militares da Ronda Tática Metropolitana (Rotam) e da Companhia de Operações Especiais (COE), unidades ligadas ao Comando de Missões Especiais (CME), além do GTO de Castanhal, atuam do incremento do policiamento. Ao mesmo tempo, equipes do Batalhão de Polícia Rodoviária (BPRv) atuam com o policiamento em áreas adjacentes ao Complexo de Santa Izabel por meio de carros e motocicletas. O trabalho do BPRv prossegue ao longo do dia.

Apreensão. A Segup informa ainda que durante a noite de terça-feira e a manhã desta quarta-feira, 11, incursões foram realizadas no Complexo Penitenciário de Santa Izabel e em área de mata das adjacências onde foram apreendidos 11 armas, dois coletes, carregadores, farta munição, estoques, facas e ferramentas. De acordo com a Polícia Militar, as armas são quatro fuzis, uma carabina, uma submetralhadora, duas espingardas, duas pistolas e uma arma caseira. Dentre os fuzis, três são do calibre 7,62mm. Todo o material apreendido foi encaminhado à Polícia Civil.

Flagrante. A Polícia Civil autuou em flagrante por porte ilegal de munição de uso restrito, na madrugada desta quarta-feira, 11, Wanderleia Reis da Silva, que foi abordada por policiais militares, na rodovia BR 316, próximo ao Complexo Penitenciário de Santa Izabel do Pará. Durante a abordagem, ela estava de posse de um carro tipo Fox, de placa OTC 0207, de Castanhal. O veículo era dirigido pela mulher. Em depoimento, ela admitiu que aguardava no local homens que tentaram, na terça-feira, resgatar presos do Centro de Recuperação Penitenciário do Pará (CRPPIII) para lhes dar fuga.

Ela foi apresentada na Seccional de Santa Izabel do Pará, onde foi autuada em flagrante e interrogada por policiais civis. Durante revista no carro, os policiais militares encontraram, no veículo, uma quantidade de dinheiro, em torno de R$ 3 mil, e um caderno com anotações, citando quantidades de munições diversas e armas. Além disso, foram encontradas cinco munições de calibre .40 no carro. A presa foi transferida ao Centro de Recuperação Feminino, em Ananindeua, onde está recolhida à disposição da Justiça.

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