Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão

Após pedido de prisão de João de Deus, Natal para crianças de Abadiânia tem clima de tensão

Em discurso, mulher do médium pediu preces para João de Deus: 'Continuem rezando para que a verdade prevaleça'

Lígia Formenti, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2018 | 17h03

ABADIÂNIA - Esperada pela população carente de Abadiânia, a festa da entrega de presentes de Natal promovida por João de Deus deste ano foi feita sob clima de tensão e alegria protocolar. Neste sábado, 15, horas antes de o médium ser considerado foragido da polícia e procurado pela Interpol, sua mulher Ana Keila Teixeira ao microfone pedia preces para o marido e alegria no coração: "Apesar das turbulências, peço que todos continuem rezando para que a verdade prevaleça".

Médium que ficou conhecido internacionalmente, João de Deus está com a prisão preventiva decretada pela Justiça, acusado de abusar sexualmente de mulheres. Ele afirma ser inocente. Desde que a prisão foi anunciada, policiais percorreram mais de 20 endereços em busca do médium, mas sem sucesso. 

Neste sábado, para respeitar a tradição, tendas foram montadas em frente da casa de João de Deus, na cidade goiana de Abadiânia. Ali foram dispostos brinquedos que atraíram cerca de 200 crianças. Adultos ficaram na fila, aguardando a distribuição de bolas e bonecas para seus filhos. Em anos anteriores, muitas vezes era o próprio João de Deus que se vestia de Papai Noel e fazia a entrega. 

Desta vez, ele foi lembrado de forma indireta pela mulher no discurso e também nas camisetas usadas por pessoas da organização. Branca, ela trazia um retrato do médium, de braços abertos, exibindo na cabeça uma toca de Papai Noel. A roupa trazia ainda os dizeres: "Obrigado João de Deus."

Não havia na festa um número significativo de voluntários que atendem em seu centro. A maior parte dos frequentadores eram os "filhos de Abadiânia", como são conhecidos os habitantes que nasceram e cresceram na cidade. Adultos procuravam ficar em silêncio e fugiam de perguntas sobre a prisão preventiva, num sinal de respeito. A festa, ao contrário do que ocorre em outros anos, acabou cedo. 

Às 14h, brinquedos já haviam sido desmontados e pouco depois, a rua já era lavada. Abadiânia é dividia pela BR-60. Na parte onde ocorreu a festa, dos "filhos de Abadiânia", a previsão é de que as denúncias contra João de Deus não provoquem grande impacto. "Aqui o comércio não depende dele. Não vai ficar nem melhor, nem pior", afirmou um morador da cidade, que não quis se identificar.

Depois que as denúncias de abuso sexual vieram à tona, na semana passada, o receio de ser identificado aumentou. A figura de João de Deus, aos 76 anos, provoca não apenas adoração, mas temor - sobretudo da população mais pobre.

A apreensão é evidente na parte oposta da cidade, onde pousadas e lojas floresceram graças ao turismo movimentado com a Casa Dom Inácio de Loyola. Anualmente, cerca de 120 mil pessoas visitavam o local em busca de tratamento com o médium.

O maior receio dos comerciantes é de que, com a credibilidade comprometida, o turismo religioso caia e leve junto seus empregos e a renda. Nesta semana, a primeira depois de o escândalo surgir, o movimento foi muito abalado. Várias reservas de hotéis foram canceladas, o número de ônibus com fiéis se reduziu de forma expressiva. "Tinha dia, que víamos 30", contou na quarta a voluntária Jacira Oliveira Soares. 

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