Após três dias de silêncio, Lula apela para emoção em discurso

Em cadeia de rádio e TV, presidente diz estar com ?coração sangrando? e promete investigação aos familiares

Lisandra Paraguassú e Vera Rosa, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2022 | 00h00

Depois de três dias de silêncio sobre o acidente com o vôo 3054 da TAM, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez ontem um pronunciamento em cadeia de rádio e TV em tom emocionalmente forte. Em uma fala de cinco minutos, Lula disse estar com o "coração sangrando" como as famílias afetadas e que o governo fará "o possível e o impossível" para apurar as causas do acidente. Mas, ao mesmo tempo, admitiu que o aeroporto de Congonhas é hoje um dos maiores nós do sistema aeroviário do País - algo que se tornou evidente nos últimos 10 meses - e que é preciso resolver o problema "imediatamente". "Nosso sistema aéreo, apesar dos investimentos que fizemos na expansão e na modernização de quase todos os aeroportos brasileiros, passa por dificuldades. E seu maior problema hoje é a excessiva concentração de vôos em Congonhas. E é isso que precisamos resolver imediatamente", afirmou. Lula anunciou as medidas para Congonhas que não foram tomadas nos últimos meses e terminaram por ser decididas ontem, depois de uma reunião do Conselho de Aviação Civil (Conac). A reunião já havia sido convocada antes do acidente, mas só se transformou em decisões práticas depois do desastre. Ontem, o presidente afirmou que o governo tomará todas as providências para diminuir os riscos de novas tragédias, mas garantiu que o sistema aéreo brasileiro tem segurança compatível com os padrões internacionais. Na abertura do seu pronunciamento, o presidente disse sentir as perdas das famílias afetadas "como se fossem nossas". "Estamos todos, homens e mulheres, de Norte a Sul do Brasil, com o coração sangrando. Sei que nada iguala o sofrimento das famílias que perderam seus entes queridos no acidente, mas, em nome dos brasileiros e brasileiras, quero dizer que sentimos suas perdas como se fossem nossas", afirmou. "Choramos e nos revoltamos junto com vocês. Não conseguimos aceitar a tragédia." Ao afirmar que o governo fará "o possível e o impossível para apurar as causas do acidente", Lula explica que ele mesmo determinou investigações à Aeronáutica e à Polícia Federal e que nenhuma hipótese deixará de ser analisada. No entanto, pede "serenidade" aos brasileiros para que não sejam feitos julgamentos precipitados. "Não se pode condenar ou absolver quem quer que seja com base em opiniões apressadas. Não se deve abandonar nenhuma linha de investigação por antecipação. Estou seguro de que, em breve, o País terá as informações que precisa e merece", disse no discurso. Lula termina sua fala dizendo que tem certeza de que as medidas tomadas ontem farão com que o sistema aéreo volte a atender às necessidades do País. Falando novamente para as famílias: "Sei que não há palavras para confortá-los nesta hora. Peço a Deus que dê força a todos vocês para superar o sofrimento". Pouco antes de gravar o pronunciamento, o presidente estava abatido. "Tudo o que a gente faz é nada", desabafou. "O que eu queria era devolver aquelas 200 vidas", disse, em uma referência ao número estimado de mortos no acidente ocorrido na terça-feira, no Aeroporto de Congonhas. O conteúdo da frase acabou sendo incluído no pronunciamento. Lula foi aconselhado por auxiliares, nos últimos dias, a visitar as famílias das vítimas e o local do acidente. A solução "a la Bush", no entanto, foi considerada por ele como um gesto demagógico e acabou rejeitada. A referência ao presidente dos Estados Unidos foi feita porque após o atentado terrorista ao World Trade Center, em 11 de Setembro de 2001, George W. Bush viajou para Nova York, onde percorreu os escombros das torres gêmeas com grande estardalhaço. No Palácio do Planalto, um auxiliar de Lula contou que ele demorou para aparecer publicamente após o desastre com o avião da TAM por respeito à dor das famílias das vítimas. De acordo com esse assessor, o presidente tem "brutal aversão a tirar proveito de tragédias" e não sossegou enquanto o pacote de medidas para aliviar o tráfego aéreo em Congonhas não ficou pronto.

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