Nacho Doce/REUTERS
Nacho Doce/REUTERS

Após tumulto em Pacaraima, 1.200 venezuelanos deixaram o Brasil

Posto de recepção, onde são realizados os procedimentos de controle de passaporte e vacinação, chegou a ser fechado para garantir a segurança do pessoal interno

Lu Aiko Otta, Tânia Monteiro e Mariana Haubert, O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2018 | 13h00
Atualizado 20 Agosto 2018 | 08h48

BRASÍLIA - Após os tumultos ocorridos neste sábado, 18, em Pacaraima (RR), cerca de 1,2 mil imigrantes venezuelanos deixaram o País, de acordo com o comandante da base local da Operação Acolhida, coronel Hilel Zanatta. Uma reunião de emergência para tratar da crise foi convocada pelo presidente Michel Temer neste domingo, 19, e durou cinco horas. Ficou decidido que serão enviados mais 120 homens da Força Nacional para o Estado nesta semana. Eles vão se juntar aos 31 policiais que já estavam no local.

Além disso, o governo federal anunciou que 36 voluntários na área de saúde devem seguir para Pacaraima e será intensificado o esforço de envio dos venezuelanos para outras regiões - a chamada interiorização. A proposta é tentar transferir, em média, 600 por mês. Cerca de 820 venezuelanos foram enviados para São Paulo, Mato Grosso e Brasília, entre outros locais.

O governo federal ainda deixa em aberto a possibilidade do uso das Forças Armadas no Estado, a exemplo do que já ocorreu em outros lugares com crise de segurança, como o Rio. “Há condições de empregar as Forças Armadas para a Garantia da Lei e da Ordem em Roraima. Por força de lei, tal iniciativa depende da solicitação expressa da senhora governadora do Estado”, diz a nota do Palácio do Planalto. A manifestação foi uma resposta às críticas feitas pela governadora Suely Campos (PP) à atuação do governo Temer no Estado. Nos bastidores, o Planalto avalia que a situação tem servido de “combustível” para a disputa eleitoral. Candidata à reeleição, Suely faz oposição no Estado ao senador Romero Jucá, presidente do MDB e um dos principais líderes do partido em Roraima.

No sábado, Pacaraima, cidade na fronteira com a Venezuela, viveu horas de tumulto e conflito. Bombas caseiras foram jogadas em praças e abrigos improvisados nas ruas. Venezuelanos foram expulsos e tiveram pertences queimados. A revolta começou após assalto a um dos moradores da cidade, que foi espancado. O roubo teria sido praticado por quatro venezuelanos na sexta-feira.

Segundo a nota do Planalto, as providências já adotadas para lidar com a crise humanitária na fronteira com a Venezuela somam mais de R$ 200 milhões. Foram incluídos nesse cálculo a construção de dez instalações para abrigar temporariamente os venezuelanos - das quais duas estariam prestes a ser concluídas -, o processo de interiorização e o ordenamento da fronteira, com controle e triagem. Será criado um “abrigo de transição” em Roraima, entre Boa Vista e Pacaraima, para dar suporte aos imigrantes enquanto eles aguardam a interiorização, “de forma a reduzir o número de pessoas nas ruas”. 

Neste domingo, não foi divulgado dinheiro extra da União para o Estado, mas ficou definido que uma comissão interministerial seguirá para Roraima “para avaliar medidas complementares”. 

Diplomacia

O governo ainda informou que o Itamaraty está em contato com autoridades venezuelanas. “No sábado, esse diálogo serviu, também, para que cerca de 30 brasileiros, que se encontravam em território venezuelano, pudessem retornar em segurança ao Brasil.”

A medida foi uma resposta ao governo da Venezuela, que havia expressado “preocupação” com o que ocorreu no sábado, apontando possível violação de normas do Direito internacional. Na nota, a chancelaria venezuelana rechaçou “a instrumentalização de uma lamentável situação de violência alimentada por uma perigosa matriz de opinião xenófoba, multiplicada por governos e meios a serviço dos inconfessáveis objetivos do imperialismo”. Disse ainda que deslocou pessoal do consulado para Pacaraima para verificar as “condições de integridade dos cidadãos venezuelanos” na cidade fronteiriça, e “tomar as medidas de resguardo e segurança de suas famílias e pertences” por causa dos ataques.

Nesta segunda-feira, 20, o governo brasileiro fará um novo encontro interministerial para concluir as negociações para o início das obras do “linhão” que permitirá a integração de Roraima ao sistema elétrico nacional. O Estado utiliza energia da Venezuela - e têm sido frequentes os apagões.

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