Após um ano, familiares voam sobre destroços da Gol

Cerca de 70 parentes das vítimas do vôo 1907 viajam até Mato Grosso para prestar homenagens

Bruno Tavares,

29 Setembro 2007 | 10h07

No aniversário de um ano do segundo maior acidente aéreo da história do País, cerca de 70 familiares das vítimas do vôo 1907 da Gol embarcaram em um avião C130 Hércules da Força Aérea, às 9h30, rumo ao local do acidente, no norte do Mato Grosso. O Boeing se chocou no ar contra um jato Legacy, em 29 de setembro de 2006, matando 154 pessoas.   Veja também: Especial sobre a crise aérea Falha humana causou tragédia da Gol   O roteiro inclui um sobrevôo sobre o local do acidente, em uma região de mata fechada e uma parada na Base Aérea do Cachimbo, onde será celebrada uma missa. Além disso, por volta das 7 horas deste sábado, 29, cinco familiares embarcaram com a Aeronáutica rumo à Fazenda Jarina, que serviu de base para as operações de resgate, levando uma imagem de santa e uma placa de homenagem aos militares e civis que ajudaram no resgate.   O brigadeiro Jorge Kersul Filho, chefe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáutico (Cenipa), esteve na base aérea de Brasília para acompanhar o embarque dos familiares. "Preferi não ir junto, pois este é um momento deles", disse o brigadeiro.   O sobrevôo ao local do acidente será no mesmo momento do choque - por volta das 17 horas. A porta do avião será aberta para que as famílias joguem flores em homenagem às vítimas. "Estou emocionada, pois fazia muito tempo que eu queria prestar esta homenagem ao meu sobrinho", disse Maira Aparecida Gomes Cavalcanti, de 42 anos, tia de Carlos Cruz. "Temos muito a agradecer à Aeronáutica, que possibilitou o sepultamento de nossos familiares".   Balanço   Na sexta-feira, a Gol anunciou que avalia a possibilidade de enterrar parte dos destroços espalhados na Floresta Amazônica do Boeing. Além disso, a empresa afirmou que não vai prorrogar o plano de saúde dos familiares das vítimas. Vai postergar apenas a assistência psicológica a eles, por mais 12 meses.   No balanço de um ano da tragédia, a Gol também contabilizou acordos amigáveis com 82 parentes de 32 vítimas. Três escritórios de advocacia que, juntos, defendem as famílias de 104 das 154 vítimas questionaram a informação de que a empresa conseguiu fechar os acordos. Os valores pagos pelas indenizações não foram divulgados.   Falha humana   O relatório final sobre as causas do acidente entre o Boeing 737-800 da Gol e o jato Legacy vai apontar uma série de falhas humanas como fatores determinantes para a tragédia. Embora a investigação aeronáutica não fale em culpados, a conclusão lógica é de que o somatório de erros cometidos por controladores de Brasília (Cindacta-1) e pelos pilotos americanos do Legacy, Joseph Lepore e Jan Paul Paladino, levou à colisão das aeronaves.   O documento, que já concluiu a etapa de investigações e está na fase de conclusões finais, descarta falhas ou panes nos equipamentos de comunicação, no transponder (conjunto de antenas que estabelece contato com os radares em terra) e no sistema anticolisão (TCAS, na sigla em inglês) do jato. Não foram encontradas evidências de que a cobertura de radar na área do acidente tenha influenciado na tragédia - afastando a suspeita de um "buraco negro" na região.   Em linguagem técnica, evitando juízos de valor, o relatório detalha os "fatores contribuintes" para a colisão. Relata que os americanos deixaram de tomar as providências devidas em caso de falha de comunicação, como digitar no transponder o código 7600. A grande dúvida é o motivo do desligamento do aparelho. Diante da falta de dados técnicos, é provável que a comissão decida só indicar hipóteses, como erro de digitação ou o acionamento indevido de algum botão.   Paladino e Lepore também não questionaram o controlador do Cindacta-1 sobre a divergência entre o plano de vôo solicitado - 37 mil pés de São José dos Campos (SP) a Brasília e, em seguida, 36 mil pés até Manaus - e o supostamente autorizado - 37 mil pés durante todo o trajeto. Com isso, o Legacy passou a voar na contramão da aerovia UZ6, entrando em rota de colisão com o Boeing.   É a partir desse instante que a conduta dos controladores de vôo passa a ser preponderante para a tragédia. Ao perderem o contato com o Legacy, eles deveriam ter programado em seus consoles cinco freqüências alternativas de rádio, o que não foi feito, conforme perícia realizada nos equipamentos. Essa constatação e as recomendações de segurança emitidas nos últimos meses pela Cenipa sugerem uma falha na formação dos controladores. Tudo leva a crer que eles não sabiam como agir nesses casos.   Dez meses após o acidente, no dia 17 de julho de 2007, o vôo 3054 da TAM não consegue pousar no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, tenta arremeter e se choca com um prédio da TAM Express. Este foi o maior acidente aéreo do País, deixando 199 mortos.

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