Apreendidos 114 celulares no Complexo de Bangu

Operação conjunta e inédita das secretarias de Justiça e Segurança Pública do Rio de Janeiro, que mobilizou cerca de 1.500 policiais civis e militares, resultou nesta segunda-feira na apreensão de 114 telefones celulares, 135 carregadores, 3.093 trouxinhas de maconha, 37 papelotes de cocaína, 2 balanças de precisão, marretas e facas em nove unidades do Complexo Penitenciário de Bangu. "Nós estamos fechando o escritório central do crime no Rio de Janeiro", afirmou o secretário da Segurança Pública, Roberto Aguiar, admitindo a ação de criminosos no interior dos presídios, considerados de segurança máxima.As buscas começaram às 7h30, com o auxílio de quatro helicópteros e cães farejadores. Durante a revista, todos os 8.050 presos que ocupam as nove unidades foram deslocados para os pátios internos dos prédios. De acordo com a polícia, não houve resistência e ninguém ficou ferido.O secretário de Justiça, Paulo Saboya, disse que foi a "maior operação de todos os tempos realizada no País". Ele afirmou que os telefones celulares entram em Bangu escondidos nas partes íntimas de visitantes e disse que é difícil controlar isso. "É complicado mesmo. Normalmente, os celulares ficam escondidos em partes internas do corpo das companheiras dos presos. Mas não podemos submeter visitantes a esse tipo de constrangimento. Isso seria uma violação dos direitos constitucionais", disse.O diretor do Departamento do Sistema Penitenciário (Desipe), Édson de Oliveira Rocha Júnior, admite, porém, que só há uma maneira de drogas e celulares entrarem nas unidades: "Infelizmente, é omissão ou conivência de servidores." Saboya disse que não há como garantir que haja corrupção de agentes penitenciários, mas afirmou que, após a apuração dos responsáveis, os servidores culpados "serão expulsos". "Não posso garantir que não entre mais, mas se entrar vamos apreender."Nas nove unidades do complexo vistoriadas trabalham cerca de 2 mil agentes. O secretário, que assumiu o cargo em abril, disse que não tem dados sobre quantos foram punidos nos últimos meses.Segundo Saboya, o edital para a compra de bloqueadores de celular em Bangu 1 será publicado nesta terça-feira e a instalação deverá ocorrer dentro de 35 dias. Saboya vai a Brasília tentar mais recursos para o sistema nas outras oito unidades e reequipar o complexo. "Isso (a entrada de celulares e drogas) não é privilégio do Rio. É o principal problema dos sistemas prisionais no mundo inteiro. É um jogo permanente."O secretário da Segurança sugeriu a instalação de aparelhos de raio X - avaliados em R$ 1 milhão - para impedir a entrada de mulheres com aparelhos escondidos no corpo. Segundo ele, ações como a de hoje vão ocorrer periodicamente. Aguiar atribuiu o "sucesso" da operação - que vinha sendo organizada havia 15 dias - ao sigilo, numa crítica velada à ação do Ministério Público realizada em Bangu 1 no dia 18 de junho, por ordem judicial, em que houve vazamento de informações e foram apreendidos cinco celulares.Na ocasião, Saboya foi impedido pelos promotores de entrar no presídio, o que acabou provocando uma crise entre autoridades do Estado e o Ministério Público. Aguiar ironizou ainda a suposta falta de integração ocorrida em São Paulo, ao comentar a ação conjunta realizada hoje. "Veja São Paulo, que continua assim, com ações separadas. Está uma beleza." Na galeria A de Bangu 1, onde ficam o traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, e mais 11 presos, a polícia encontrou um telefone celular e pequena quantidade de maconha. Esses itens estavam escondidos na rede de esgoto do prédio. Nas nove unidades também foram apreendidas cordas, duas armas falsas, um pé-de-cabra, uma serra uma escada artesanal de dez metros e cachaça provavelmente produzida numa destilaria improvisada. Tudo foi levado para a 34ª Delegacia de Polícia, em Bangu, onde foi aberto inquérito pelo delegado Irineu Barroso.Foram vistoriados os presídios Bangu 1, 2, 3 e 4, Vicente Piragibe, Muniz Sodré, Esmeraldino Braga, Instituto Penal Plácido de Sá Carvalho e a penitenciária feminina Talavera Bruce. A expressão "escritório central do crime organizado", citada hoje por Aguiar, foi usada pelo Ministério Público para definir Bangu 1 em documento enviado à Justiça no dia 14 de junho, em que pedia autorização para mandado de busca e apreensão na penitenciária.O requerimento foi motivado por gravações feitas com autorização judicial de conversas entre criminosos por meio de celulares em poder de presos. Os telefones foram grampeados, resultando em mais de mil horas de gravação. Numa dessas conversas, a quadrilha de Beira-Mar negociava a compra de um míssil Stinger e combinava o assassinato de inimigos do traficante.O caso fez a juíza Sônia Maria Garcia Gomes Pinto, titular da 1ª Vara Criminal de Bangu, determinar o afastamento do diretor de Bangu 1, Durval Pereira de Melo, e a substituição de todos os servidores daquela unidade prisional.No mês passado, o ex-governador Anthony Garotinho (PSB), que deixou o cargo em abril para concorrer à Presidência, admitiu que permitira o uso de celulares em Bangu para grampear conversas.

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