''Aqui é quase tudo trabalhador''

Parte da comunidade diz que ação não partiu da população; um grupo disse ter reagido à truculência da PM

Flávia Tavares, O Estadao de S.Paulo

03 de setembro de 2009 | 00h00

Geldaci Carvalho voltou a pé da Vila Carioca - não pôde pegar o ônibus que a traria de volta da gráfica onde faz bico. Ao chegar em casa, encontrou, além do tumulto, a netinha aos prantos, sufocada pelo gás lacrimogêneo usado pela polícia para abafar a manifestação dos moradores de Heliópolis, na noite de anteontem, contra a morte da estudante Ana Cristina de Macedo, de 17 anos.

Ontem, observava, resignada, as carcaças dos carros queimados no protesto. "Aqui é quase tudo trabalhador. Isso não foi coisa nossa." Geldaci não quis dar palpite de quem teria iniciado o confronto. Mas o fato de não querer aparecer na fotografia da reportagem insinua que teria sido alguém perigoso.

Quem vive nos barracos e prédios da rua de trás apresenta outra versão: teria havido, sim, grande participação da comunidade. Um grupo de 40 pessoas fora à delegacia, por volta das 14 horas, protestar contra a violência policial. "Eles entram nas nossas casas, sem mandado, roubam nossas coisas, batem na gente, em busca dos bandidos", afirma Cristiane Alves, uma das mais exaltadas mães do quarteirão.

Depois de atendido pelo capitão da Polícia Militar, Fernando Rombesso, esse grupo se uniu aos colegas de Ana Cristina, que tinham passado a convocação para o protesto no boca a boca o dia inteiro. A turma de manifestantes, com diferentes demandas, estava formada. "A gente quer sair daqui. Tem promessa de casa popular da Prefeitura há quatro anos, mas é só na época da eleição", reclama Everaldo da Silva, ao confessar que, embora ninguém ali tenha recebido cesta básica do tráfico para participar do protesto, alguns moradores colaboram com os traficantes por se sentirem protegidos.

A vendedora de churrasquinho Evanilde Ferreira, que teve seu carrinho baleado num tiroteio há duas semanas, lembra-se de ouvir "o pessoal" dizer que "ia botar fogo em tudo", mas as informações na comunidade circulam assim, com um vocabulário próprio de quem não quer se comprometer: o pessoal, a molecada, os policiais. "A molecada se envolve com drogas, depois arma essa confusão", desabafa o comerciante Manoel Rocha, morador de Heliópolis há 21 anos. "Deviam aproveitar que nossa comunidade tem bastante ONG, bastante governo ajudando, em vez de enfrentar os policiais."

Os boatos continuaram por todo o dia de ontem. Até o capitão Rombesso tinha ouvido que as manifestações se repetiriam à noite. Enquanto distribuía ordens sobre a montagem de um posto policial no estacionamento da Sabesp, para enfrentar eventuais novos protestos, solicitando café e bolachas para seus homens, o PM ia dando sua visão. "O pessoal aqui tem muito ódio da polícia. Não quer que a gente combata o tráfico. E aproveita esses episódios para extravasar esse ódio."

A agressividade nunca foi a marca de Heliópolis, que tem mais de 125 mil moradores, segundo a União de Núcleos Associação e Sociedade (Unas) - a Prefeitura estima 70 mil. A favela atraiu diversos projetos sociais e, aos poucos, foi-se tornando referência nesse sentido. "Por isso, a gente entende que eventos como a morte da menina causem revolta fora do comum na população", admite o delegado titular do 95ª DP, Gilmar Contrera.

Os 21 detidos durante o confronto foram liberados na manhã de ontem e ainda não foram indiciados. Três deles têm antecedentes criminais, "mas não sei se por furto ou homicídio. Há uma grande diferença", diz o delegado, enquanto guarda seu exemplar do livro Um Mundo sem Pobreza, de Muhammad Yunus. Contrera garante que a justiça, exigida pelos moradores, será feita. "Só que justiça rápida demais ou morosa demais não é justiça."

Enquanto Heliópolis se preparava para mais uma noite tensa, a presidente da Unas, Antonia Cleide Alves, lamentava a repercussão que o confronto pode ter fora da comunidade. "Quem já tem o pé atrás com favela fica mais ressabiado ainda." Cleide não apoia a forma como os moradores escolheram mostrar sua indignação. Também não os condena. "Se não discutirmos que política de segurança pública é essa que entra na comunidade e executa as pessoas, episódios assim se repetirão, infelizmente."

Como alternativa, a Unas propõe a Caminhada da Paz, que reuniu cerca de 15 mil pessoas em junho. A associação já pensa em realizar uma sessão extraordinária, ainda sem data. "Para mostrar o lado humano da comunidade", diz Cleide.

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