Arcebispo faz sermão por ficha limpa

Na missa pelo aniversário de Brasília, ele fala em 'traição' diante de envolvidos em escândalos

Leandro Colon de Brasília, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2010 | 00h00

Na presença de políticos locais, a maioria envolvida nos escândalos de corrupção dos últimos governos, o arcebispo de Brasília, dom João Braz de Aviz, aproveitou a comemoração dos 50 anos da capital federal para cobrar a aprovação do projeto ficha limpa. O chefe religioso tratou da crise política instalada no DF desde novembro e falou em "traição".

As declarações foram feitas na missa celebrada na virada de meia-noite de terça-feira para ontem, na Esplanada dos Ministérios, em um altar montado diante do Congresso Nacional. A fila de políticos sentados em cadeiras que ladeavam o altar só não estava completa porque o governador cassado, José Roberto Arruda, que deixou a prisão no dia 12, não compareceu.

Rezaram juntos o governador recém-eleito, Rogério Rosso (PMDB), sua vice Ivelise Longhi (PMDB), o ex-governador Joaquim Roriz (PSC), o ex-vice-governador Paulo Octávio, o deputado e ex-governador interino, Wilson Lima (PR), o deputado federal Tadeu Filippelli (PMDB) e o senador Gim Argello (PTB).

Em seu sermão, dom João Braz de Avis criticou a cultura política contemporânea. "Fazer de conta que a cultura política atual, exercida por grande parte de nossos homens e mulheres públicos, deve se perpetuar, é trair os melhores ideais constitucionais e religiosos", afirmou.

"Cresceram em Brasília e na Igreja contradições e problemas que geraram crises agudas. Assim é a crise política que hoje a capital vive", disse Dom João. O recado também foi ouvido pelo chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Carvalho, e pelo ministro José Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), que estavam assistindo a missa.

Ficha limpa. O arcebispo cobrou de todos a rápida aprovação do projeto ficha limpa, que pode proibir a candidatura de políticos condenados pela Justiça. A proposta, pronta para ser votada na Câmara, está emperrada por falta de acordo entre os parlamentares.

"Este é o momento favorável para os representantes do povo brasileiro acolherem com coragem e responsabilidade o apelo de 1,6 milhão de brasileiros que assinaram o ficha-limpa", disse.

As assinaturas já estão em cerca de 2 milhões. "As populações de outras regiões administrativas apresentam uma profunda desigualdade social. E, por isso, o Jubileu de Ouro que agora vivemos é um apelo de renovação das pessoas e da sociedade", ressaltou o arcebispo.

A reunião de tantos desafetos políticos de Brasília no altar revelou-se um cenário inusitado e constrangedor. O novo governador, Rogério Rosso, - escolhido por eleição indireta após a cassação de Arruda - cumprimentou com frieza Joaquim Roriz, de quem foi secretário no governo e hoje é adversário. A mulher de Rosso e primeira-dama do DF, Karina Curi, no entanto, não esconderam a intimidade com uma das filhas de Roriz, Liliane. São amigas de longa data.

Aliado de Rosso e inimigo de Roriz, o deputado Tadeu Filippelli (PMDB-DF) manteve-se distante do ex-governador. Mesma postura adotada por Paulo Octávio, que deu um rápido aperto de mão em Filippelli e Rosso.

O ex-vice-governador e Arruda responsabilizam Roriz pela revelação do esquema de corrupção no DF. Tentam mostrar que as irregularidades já começaram na gestão do desafeto.

No meio da cerimônia, chegou Gim Argello, que assumiu a vaga de senador em 2007 após Roriz renunciar em meio ao "escândalo da bezerra". O longo cumprimento de Gim ao ex-governador ocorreu na confraternização da "Paz de Cristo".

Para lembrar

No Congresso, há 152 políticos processados

A resistência ao projeto da ficha limpa não é gratuita. Nada menos que 152 parlamentares são investigados pelo STF, segundo levantamento do site Congresso em Foco. Ou seja, um quarto dos deputados e senadores tem pendências com a Justiça.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.