Área do Porto vive às moscas

Bares e boates da região não têm mais o movimento de antes e muitos estão fechando

Flávia Tavares / SANTOS,

16 Abril 2011 | 18h07

Embora as mesas e o balcão estejam vazios, o som está no último volume. A luz de teto, daquelas de boate, gira e colore o salão. Apenas uma ou outra mesinha da calçada tem clientes cabisbaixos. Com um ar meio triste, meio debochado, Yannis, o dono, tenta explicar a decadência do bar que já foi um dos mais frequentados da zona portuária de Santos: "Marinheiro é que nem prostituta. O preconceito é enorme. Então, os europeus não deixam mais seus filhos irem para o mar. É só filipino e chinês e eles não têm dinheiro." Em seguida, dois homens que aparentam ser mesmo filipinos ou chineses entram no bar ABC, o maior da rua, igualmente vazio.

 

Engana-se quem imagina que o dono do bar Zorbas, assim batizado por conta do livro de Niko Kazantzakis, suspira ao falar da morte da zona do porto. Yannis, que nasceu João Vassalakis, de pais gregos, e viveu na Grécia de 1963 a 1980, é viúvo e tem duas jovens filhas. Depois de 25 anos de balcão, está preparado para mudar os negócios.

 

"Não fico triste, é da vida." O restaurante grego, que até 1999 foi "de família" e tinha apresentação de música grega e quebradeira de pratos, é um dos últimos remanescentes numa área conhecida pela prostituição e pela diversão adulta em Santos.

Yannis, de 54 anos, tem uma filosofia clara sobre o serviço mais antigo do mundo. Primeiramente, ele garante que prostituição tem em qualquer lugar e sempre terá seu espaço, havendo dinheiro ou não.

 

Em seguida, ele distingue: "Aqui, eu só contrato mão de obra. Quem quiser ‘pernas de obra’ que se vire. Não trabalho com isso." Completa, sempre meio bravo, que nos tempos áureos a Rua João Otávio ficava tão abarrotada de marinheiros em busca de entretenimento que mal se conseguia atravessar.

 

Além do Zorbas, do ABC, de outro inferninho e de uma lan house, um pouco mais adiante, na viela de paralelepípedos escondida por um viaduto, o American’s Bar também segue sem alma viva. O proprietário, um alemão conhecido como Gerhard, que não quis dar seu sobrenome, abriu o bar há nada menos do que 51 anos. Também se prepara para ir embora. "Não sei se foi só a falta de dinheiro que afastou os marinheiros. O fato é que não tem mais movimento", diz Gerhard. Ele lembra que, antigamente, os navios atracavam por dias no porto, dando tempo aos marinheiros para explorar a cidade. "Agora, é caro ficar atracado. Os navios chegam e no mesmo dia vão embora."

 

A decoração do American’s Bar, com bandeiras e souvenirs de diversos países, é fruto dos presentes que o alemão, ex-marinheiro, ganhou de sua clientela ao longo de cinco décadas. O bar foi até cenário de filme. Mas definha. "De vez em quando ainda vem algum amigo para fazer um churrasquinho. E é só."

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