Área teria poucos dados sobre clima

Especialista diz que região entre Brasil e África é a que dispõe de menos informações meteorológicas do mundo

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

03 de junho de 2009 | 00h00

A região do Atlântico entre o Brasil e a África é um dos locais com menor índice de informações meteorológicas do planeta. O alerta é de Herbert Puempel, chefe da Divisão de Aeronáutica da Organização Mundial de Meteorologia (OMM). Ele frisa, porém, que dificilmente apenas um fator - como um raio - tenha derrubado o avião da Air France. Segundo Puempel, há a preocupação de que mudanças climáticas criem, no futuro, um número cada vez maior de problemas para a aviação. A OMM se reunirá hoje em Genebra com representantes da Aeronáutica para saber como a entidade responsável pelo monitoramento do clima no mundo pode ajudar nas investigações sobre o acidente com o Airbus da Air France.Puempel, um dos maiores especialistas em clima e condições de voo, confirmou ao Estado que dois aviões que passaram pela mesma rota do avião da Air France naquela noite emitiram automaticamente informações meteorológicas ao sistema de computação da OMM. Mas os jatos - ambos da Lufthansa - não estavam equipados para passar informações sobre turbulência. Apenas dados sobre a qualidade do ar e outros foram repassados. Ontem, a OMM confirmou que o avião da Air France não fazia parte do sistema que automaticamente registra turbulências ou qualquer outra informação meteorológica. "É uma região difícil do globo, afetada por uma convergência das frentes no hemisfério norte e sul", afirmou Puempel. "As tempestades costumam ser de alta intensidade. Mas, hoje, a única forma de saber a situação da região é por meio de satélites e de aviões que passam pelo local. Isso ainda não está sendo suficiente para que se possa ter todas as informações necessárias sobre tempestades", disse. Segundo ele, a grande dificuldade é que não há como estabelecer radares climáticos nesses locais. "Um radar poderia funcionar a até 400 quilômetros da costa. Mas nunca além disso", explicou. Apesar da falta de informação, o especialista rejeita a tese de que apenas um raio poderia derrubar um avião. "Vai haver uma investigação e nós faremos parte disso. Mas desde já posso dizer que sempre consideramos os fatores climáticos como algo que pode contribuir para um acidente. O que também se pode dizer é que aviões estão equipados para suportar raios e que, na grande maioria dos casos, um incidente ocorre por causa de vários fatores e não apenas um", disse Puempel. Outra dificuldade para saber o que de fato ocorreu é que, além da falta de cobertura, algumas dessas tempestades podem ser curtas e localizadas. "Essa é uma região onde pode haver tempestades intensas, mas de curta duração, o que seria ainda mais difícil de prever."MUDANÇA CLIMÁTICASegundo especialistas, a situação meteorológica poderá ficar ainda mais intensa nos próximos anos. "Se a situação climática for para a direção que indica o Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC), então há indicações de que as mudanças não serão apenas na temperatura da superfície do planeta, mas também no espaço aéreo", disse. Segundo ele, estudiosos e empresas estão debatendo formas para garantir um maior número de informações para os voos. "Estamos em contato com representantes do setor para que estejam melhor preparados." Puempel hesita em afirmar que já exista uma mudança no clima que esteja gerando maior turbulência para os pilotos. "Alguns pilotos apontam que de fato isso está ocorrendo. Outros não", disse. "A realidade é que temos de construir um sistema em que haja um número maior de informações." "Tenho falado com pilotos que alertam que sempre que passam pela região em questão enfrentam turbulências e contam com pouca informação." Uma das ideias em debate é instalar em todos os jatos radares e equipamentos que possam, automaticamente, enviar os dados a uma central, que os redistribuiria a todas as companhias aéreas.

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