Pedro Kirilos/Estadão - 08/07/2022
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Conheça Arinda Sobral, 1ª arquiteta formada do Brasil, e qual é sua obra que resiste no Rio

Trajetória da carioca, formada em 1914, foi resgatada por pesquisadora após anos de apagamento; capela centenária que projetou está no Parque Nacional da Tijuca

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2022 | 05h00

Em agosto de 1883, nascia uma pioneira. Filha de Margarida e  João José Sobral, a carioca Arinda da Cruz Sobral viria a se tornar a primeira arquiteta formada no País, em 1914, aos 31 anos.

A arquiteta viveu por quase 100 anos, mas permaneceu esquecida por décadas. Sua história foi resgatada há alguns meses, durante o doutorado da historiadora Camila Belarmino, de 39 anos, no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP São Carlos.

Arinda ingressou no então único curso de Arquitetura do País em 1907, implantado mais de 90 anos antes na Escola Nacional de Belas Artes, hoje parte da UFRJ. Durante a formação, feita em paralelo ao trabalho como professora primária, ficou em segundo e terceiro lugar em concursos de desenho figurado (respectivamente em 1908 e 1909) e ganhou uma distinção. Só em 1929, outra mulher concluiria a formação, a arquiteta Danúzia Palma Dias Pinheiros.

Segundo a pesquisadora, Arinda tinha uma ligação especial com a região da Tijuca. E não foi muito distante dali que teve o primeiro projeto implementado: a Capela São Silvestre, na Estrada das Paineiras, caminho para o Corcovado e parte do tombamento do Parque Nacional da Tijuca, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Por anos, a capela foi noticiada como a “menor igreja do Rio”, pelas dimensões que lembram um oratório e permitem apenas celebrações ao ar livre. Sobreviveu a deslizamento e incêndio nas imediações até ser restaurada e reinaugurada em 2006. Recebe missas da Capelania Nacional dos Escoteiros do Brasil nos primeiros sábados do mês, às 10 horas.

Primeiro projeto de uma arquiteta formada no País, a capela foi celebrada desde o início. A colocação da pedra fundamental, em 1911, foi noticiada e teve a presença do então presidente, Hermes da Fonseca. Em mais de uma publicação, jornais destacam a autoria da primeira arquiteta do País.

A capela foi construída em um terreno cedido pela companhia Tramway, Light and Power, por iniciativa do coronel João Victorino da Silveira e Souza Filho (que trabalhou com Arinda na educação pública), de André Gustavo Paulo de Frontin, engenheiro de renome à época, e de uma senhora identificada como A. Saraiva da Fonseca. Junto ao alicerce, foi colocada uma cápsula do tempo, um cofre com bilhetes, jornais daquele dia e a ata da cerimônia, que contou com apresentação musical, discurso e presença de autoridades e instalação de uma imagem de São Silvestre.

No mês seguinte, em 20 de janeiro de 1912, aniversário do Rio, outra celebração marcou o início oficial da obra, com mais uma vez o enterramento de uma cápsula do tempo, com bilhetes. A inauguração foi em 1918.

Na avaliação da pesquisadora, a capela se encaixa no ecletismo, com elementos clássicos e barrocos, por exemplo, e guarda parte significativa das características originais. “A nossa primeira arquiteta estava na ordem do dia com as tendências arquitetônicas", diz Camila. 

Formada no curso Normal um ano antes de ingressar no de Arquitetura, Arinda foi professora no Instituto Profissional Feminino e escolas primárias do Rio, por ao menos 20 anos.  Em 1923, casou-se com outro funcionário público, adotando o nome de Arinda Sobral Belham. Viveu até 1981, no Rio, e  teve ao menos uma filha, que morreu aos seis anos.

Filha de um funcionário público, não teve outro projeto arquitetônico identificado pela historiadora Camila Belarmino, que segue com os levantamentos históricos e procura por possíveis descendentes. Ela também busca  comprovar se a brasileira foi a pioneira na América Latina (feito geralmente atribuído à uruguaia Julia Guarino, em 1923) e almeja a colocação de uma placa de identificação na capela.

'Denuncia o apagamento, mas mostra que elas enfrentavam desafios da época'

A pesquisa da historiadora Camila Belarmino foi inspirada por um questionamento que costumava ouvir quando lecionava História da Arquitetura anos atrás: “afinal, quem são as primeiras arquitetas brasileiras?”. “Eu não conseguia dar essa resposta”, explica.

A busca começou em 2019, com o início do doutorado, no qual identificou as 28 primeiras matriculadas no curso da Escola Nacional de Belas Artes, entre 1907 e 1938 (todas nos anos 1930, com exceção de Arinda e Danúzia). A pesquisa se estenderá até os 1960, período de maior inserção de mulheres no ensino superior (o curso foi profissionalizante até 1931).

“É um trabalho que denuncia o apagamento, mas que mostra para o público que elas existiram, que estavam enfrentando os limites da época para constituir sua experiência histórica enquanto mulher”, descreve.

A maior parte do levantamento foi feito no acervo da escola, disponível no arquivo do Museu D. João VI, e em notícias de jornais da época. “É uma forma de dar  resposta a tantas mulheres que me perguntaram onde estavam na história. A gente precisa encontrar essas mulheres, para que nossas arquitetas que estão se formando se sintam representadas."

Na avaliação da pesquisadora, salvo exceções como Lina Bo Bardi e Carmen Portinho, a trajetória das arquitetas sofreu um apagamento na história brasileira. Ela descreve o trabalho como de “desinvibilização”. “Nos currículos, de uma forma geral, não tem a presença dessas mulheres. Tem figuras masculinas, grandes mestres. Há um apagamento grande.”

Camila explica que a pesquisa ocorre em três esferas: a da formação (história das pioneiras e dos locais onde estudaram), a do trabalho (projetos e trajetória profissional) e da atuação social (relação com movimentos feministas). “É importante para o reconhecimento do papel das mulheres na Arquitetura e no Urbanismo e na história da consolidação das nossas cidades”, argumenta. 

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