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Armas de fogo matam mais de um Carandiru por dia no Brasil

Número de assassinatos diário no País é de 123, superior ao massacre no presídio paulista em rebelião de 1992, quando 111 foram mortos

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2016 | 00h01

SÃO PAULO - As armas de fogo mataram 123 pessoas por dia em 2014, de acordo com o Mapa da Violência 2016.  É mais do que no Massacre do Carandiru, quando 111 presos foram mortos em São Paulo, na rebelião de 1992. “Enquanto o Carandiru promoveu uma comoção nacional e internacional, ninguem se flagra para os números de hoje”, diz Jacobo Waiselfisz. “Isso é ordenado como algo natural, feito um terremoto que não se pode evitar. Mas há exemplos de Estados que dizem o contrário.”

Para o sociólogo, apesar de a taxa de homicídio estar praticamente estável desde 2003, após uma política de controle de armas, com avanço de 0,3% ao ano, a quantidade de casos comprovam a insistência da violência. “A febre persiste. O ‘indivíduo’ (Brasil) não morreu, mas continua na UTI”, afirma. 

Segundo Jacobo Waiselfisz, os dados mostram que o Estatuto e a Campanha do Desarmamento, a partir de 2003, impactaram diretamente para frear o crescimento da taxa de homícidio. “É o único fenômeno que a contece a nível nacional, não há outra explicação”, afirma. “Ninguém é ingênuo de achar que a Campanha do Desarmamento resolveria o problema da violência no Brasil. O que se pensava é que ela  baixaria o nível de letalidade dos conflitos. Ela rendeu o que deveria render.” Para os cálculos do Mapa da Violência 2016, 133.97 vidas foram poupadas pela política de desarmamento. 

O uso da arma de fogo para matar registrou uma escalada no Brasil, em especial nas décadas de 1980 e 1990. Em cerca de 30 anos, o emprego do instrumento em homícidios passou de 43,9% para 70,8%. A partir de 2003, o crescimento desacelerou, mas não o suficiente para tirar seu protagonismo da arma de fogo. Ela foi o instrumento usado em 71,7% dos cerca 58,9 mil homicídios de 2014, conforme informou o Estado, em junho. Em números absolutos, os casos multiplicaram-se por sete ao longo do período.

Outro fenômeno observado na pesquisa é que os homicídios passaram a corresponder a 95% das mortes provocadas por arma de fogo. Para Jacobo Waiselfisz, a explicação está associada à consolidação do País como um produtor bélico. “O Brasil se converteu no quarto exportador de arma de fogo. Tem a seu dispor uma enorme quantidade de recursos e as empresas financiaram campanha de 60 deputados”, diz.

Perfil das vítimas. Homem, jovem e negro. O perfil da vítima de homicídio no Brasil se repete mais uma vez no Mapa da Violência 2016. “São pessoas das periferias, que não têm muita opção estrutural de se inserir no mercado de trabalho”, afirma Jacobo Waiselfisz. Em 2014, 94,4% das vítimas eram homens e 60% tinham entre 15 e 29 anos.

Por sua vez, a taxa de homicídios de negros chegou a 27,4 casos por 100 mil habitantes - crescimento de 9,9% em dez anos. Já a taxa de homicídios de brancos caiu 27,1%, de 14,5 para 10,6 mortes por 100 mil no mesmo período. “Ou seja, morrem 2,6 vezes mais negros que brancos vitimados por arma de fogo”, diz o estudo.

Segundo Jacobo Waiselfisz, a  probabilidade de uma pessoa ser morta a tiros também varia com a Educação. Quanto menor a escolaridade, maior é a chance. “Para cada jovem de 15 a 19 anos, que estudou 12 anos ou mais, morrem 44 semi-analfabetos. Na faixa entre 20 a 29 anos, essa relação é de 1 para 66”, afirma. Os números fazem parte do estudo Educação: Blindagem Contra a Violência Homicida, deste ano, de autoria do sociólogo.

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