Arqueólogos vão explorar cemitério de negros no Rio

Esquecido por quase dois séculos, o Cemitério dos Pretos Novos, na Gamboa, centro do Rio, onde milhares de escravos recém-chegados ao País teriam sido enterrados no período de 1770 a 1831, começou a ser explorado hoje por uma equipe de seis arqueólogos. O início dos trabalhos de marcação para futura escavação - que deverá começar em janeiro - da casa número 36 da Rua Pedro Ernesto foi um dos eventos da prefeitura em homenagem a Zumbi dos Palmares, cujo dia foi comemorado hoje. O cemitério de escravos havia sido descoberto em janeiro de 1996 pela proprietária da casa, Ana Maria de La Merced, durante uma obra de reforma. Ela conta que um dos pedreiros chegou a pedir demissão depois de encontrar ossos humanos no quintal. Merced chamou então a prefeitura, que designou arqueólogos para estudar os ossos encontrados. "Em meio aos fragmentos, conseguimos identificar ossadas e mandíbulas de 28 pessoas com idades entre 18 e 25 anos", disse a arqueóloga e antropóloga Lilia Cheuiche Machado, que coordena o trabalho. "Com isso, constatamos que se tratava do cemitério onde eram enterrados os negros que morriam logo após chegar ao Brasil e que funcionou por mais de 60 anos na Gamboa". Historiadores desconfiavam da existência do cemitério, mas não sabiam sua exata localização. O diretor do Arquivo Geral da Cidade, Antonio Carlos de Athayde, estima que pelo menos 10 mil corpos estejam enterrados no local. O terreno da casa tem 150 metros quadrados e a antropóloga Eliana Carvalho, do Departamento de Patrimônio Cultural da prefeitura, diz que há documentos indicando que o cemitério ocupava uma área de 10 mil metros quadrados. Portanto, não deve ser a única casa da região construída sobre corpos de escravos. "Certamente não é, mas precisamos de estudos que comprovem a existência de potencial arqueológico nestas áreas. É o que estamos fazendo, primeiramente aqui nesta casa", diz ela. O trabalho de escavação está previsto para durar mais de um ano, fora a análise dos materiais encontrados. "Estou orgulhosa. Isso aqui era uma história esquecida, o holocausto africano, que agora poderá ser contada. Vai atrapalhar um pouco a minha privacidade, mas pelo menos vou poder ter aulas de arqueologia no quintal. Estou tranqüila de morar aqui, só espero que não demore muito, porque quero acabar a minha obra", disse a dona da casa, que mora com o marido e três filhas na casa construída sobre o cemitério. A prefeitura descarta a hipótese de desapropriação. O início dos trabalhos de escavação foi comemorado com a participação de baianas servindo comida típica e a apresentação de grupos de música negra.

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