Arquiteto dos playboys e dos manos

Marcelo Rosenbaum prepara dois novos restaurantes em SP e comemora o sucesso do quadro ?Lar, Doce Lar? na Globo

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

02 de dezembro de 2007 | 00h00

A sorte é que o armário de roupas está abarrotado, cheio de jeans e camisetas moderninhas. E sua mulher Cristiane sabe cozinhar um pouquinho - ou, pelo menos, o caderninho de telefones tem um bocado de números de delivery. Não fosse por isso, Marcelo Rosenbaum provavelmente estaria em sérios apuros. Afundado num sofá todo branco e felpudo, com sua fala mansa e os olhos atentos, o arquiteto e decorador de 39 anos assume que nunca volta a pôr os pés em alguma loja ou restaurante que ajudou a criar depois da inauguração. É algo "psicológico" - conta ele, coçando a cabeça -, que precisaria ser discutido num divã para ser explicado direito.O grande problema é que, logo, logo, Rosenbaum não terá mais onde comprar roupas ou mesmo jantar em São Paulo. Com 22 anos de carreira, ele é hoje o arquiteto queridinho da "descolândia paulistana". Já desenhou mais de 200 lojas (entre elas as das marcas Zapping, Sommer, Fause Haten, Cavalera, Zoomp e Levi?s), dezenas de restaurantes e casas noturnas (como a Casa Pizza, no Itaim, e e o Clube Glória, no Bom Retiro), outras tantas residências (como as de Turco Loco, Tufi Duek e Celso Loducca), um sem-número de cenários do São Paulo Fashion Week e até uma igreja no interior paulista. "É, esse negócio de não voltar nos lugares vai começar a me trazer dores de cabeça", brinca ele, quase uma estrela de tevê depois do sucesso do Lar, Doce Lar, quadro do programa Caldeirão do Huck que dá uma recauchutagem geral na casa de alguma família da periferia. Nas próximas semanas, Rosenbaum vai adicionar mais dois restaurantes na listinha para nunca mais botar os pés - o japonês Shaya (de João Paulo Diniz e Marcus Buaiz), na Rua Amauri, e a nova casa do chef Alex Atala, ainda sem nome.Ex-bicho grilo, que adorava caminhadas no campo e passeios no Guarujá, Rosenbaum atualmente encarna esse lado, digamos, mais cool de São Paulo. Em faculdades de arquitetura, é tido como um profissional que consegue em um mesmo ambiente colocar uma luxuosa cadeira Philippe Starck de R$ 55 mil, uma samambaia de plástico, uma Santa Ceia de baquelite e fitinhas do Senhor do Bonfim - sempre com elegância. O arquiteto judeu, devoto fervoroso de Santo Expedito e com uma imagem de Buda gigantesca em sua casa no Sumaré (alugada, diga-se de passagem) é daqueles que desconfiam de qualquer decoração discreta e limpa demais, onde o tapete fica combinadinho com o sofá e as cadeiras fazem par de vaso com os abajures. "A casa tem de transmitir a alma de quem vive naquele espaço. Tento nos meus projetos resgatar um pouco da arte popular brasileira e da memória coletiva. Quando viajo, estou sempre colecionando cacarecos, brinquedinhos, essas coisas populares", conta Rosenbaum. Nascido em Santo André, filho de pai advogado e mãe dona de casa, ele começou a trabalhar logo no primeiro ano da faculdade, quando fez o projeto de uma loja multimarcas da mãe de sua namorada na época. "Cursei arquitetura porque... sei lá... só tinha isso na cabeça", conta o pai coruja de Bertha, de 5 anos, e de Ian, de 1 - o nome dos filhos e as datas de concepção e de nascimento da dupla estão tatuadas ao longo de todo o seu braço direito. "A única outra profissão que cogitei foi diplomata, mas essa eu abandonei ainda criança."Uma recente reforma de um apartamento nos Jardins rendeu a Rosenbaum a indicação de uma revista australiana como um dos cem mais bonitos do mundo. Apesar de ser a cara desse mundinho descolado da cidade, o arquiteto até levanta um pouco do sofá para falar com toda a sinceridade: "Você quer saber? Eu queria de verdade desenhar móveis populares, das Casas Bahia, esses que são vendidos a prestações. Não é brincadeira, sempre falei isso. Quero trabalhar com a base da pirâmide, não só com o topo. Todo mundo merece morar bem, se sentir bem em casa."PAIXÃOEssa vontade está sendo aos poucos realizada no quadro Lar, Doce Lar, irmão brasileiro do reality show americano Extreme Makeover. A produção do apresentador Luciano Huck seleciona a carta de uma família com história dramática que precise de uma casa nova. O Ibope da Rede Globo costuma pular de 13 para 25 pontos quando começa o quadro. Rosenbaum faz o projeto em sete dias - destrói tudo, escolhe novos móveis, às vezes discute com os pedreiros e no final sempre se emociona com o resultado. Mas sem afetação ou uma postura ?sou-pop-e-faço-coisas-estranhas-nas-casas-dos-outros-para-ser-cool?. "Nunca tinha visto esse programa estrangeiro na televisão. Na verdade, não sou muito de assistir a TV. Por isso sigo meus instintos, tento entender o que a família precisa. Não vou impondo minhas vontades. É a casa da pessoa, ela precisa se sentir confortável ali."Rosenbaum só não fala com mais paixão da arquitetura do que dos projetos sociais com os quais está envolvido. No dia 18, ele vai fazer um leilão com todos os móveis que criou para seu espaço na Casa Cor 2007. O evento será no Centro da Cultura Judaica e toda a renda, revertida para a ONG Dança Vida, que já atendeu mais de mil crianças em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. "Não sou cego nem alienado, sei que a elite não representa quase nada na nossa sociedade", diz. "O leilão é uma chance de ajudar um pouquinho com o meu trabalho e agradecer por todas as coisas boas que estou recebendo atualmente."

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