Arquitetos da Bienal apóiam projeto de Niemeyer para mudar marquise

Manifesto sugere rever tombamento do Ibirapuera; mostra começa sábado, com o tema ?O Público e O Privado?

Sérgio Duran, O Estadao de S.Paulo

04 de novembro de 2007 | 00h00

A 7ª Bienal Internacional da Arquitetura (BIA), que começa sábado no prédio da Fundação Bienal, em São Paulo, adotará posição contrária ao Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico (Conpresp) de preservar a marquise do Parque do Ibirapuera. Manifesto assinado pela organização e disponível no evento adotará posição favorável ao arquiteto Oscar Niemeyer, retomando uma polêmica que se arrasta há quase cinco anos. Grande homenageado do evento, Niemeyer defendeu que a cobertura fosse cortada em cerca de 40 metros para construir uma extensão que a ligasse à oca e ao novo teatro. Mas o parque é tombado pelo patrimônio histórico e o Conpresp vetou o projeto, irritando o arquiteto. O desenho original da marquise, visto de cima, é usado como logotipo do evento."O fato é que havia essa ligação nos primeiros projetos do parque", defende o arquiteto José Magalhães, curador da 7ª BIA. "A marquise era o grande elemento de conexão urbana, que une os elementos do Ibirapuera. Tudo isso tem tudo a ver com o evento.""O Público e o Privado" é o tema da bienal deste ano - uma questão fundamental de qualquer projeto arquitetônico. "E Niemeyer foi quem mais explorou a relação entre as duas esferas, com os pilotis, as marquises que fazem essa relação com o público nos edifícios privados."RESISTÊNCIAA São Paulo de Niemeyer resiste em projetos como o do Copan - para Magalhães, uma excelente idéia para habitação de interesse social -, porém, acaba em situações como a da Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, na zona sul, onde os prédios com térreo fechado transformam as calçadas em espaços desertos à noite. "O público e o privado remetem à Constituição de 1988, a Constituição Cidadã, que definiu a função social da propriedade", diz o curador.Para ele, falta um projeto urbano à cidade de São Paulo que leve os agentes que produzem sua expansão a respeitarem a função social da propriedade em todas as matizes. "Você vê os prédios da Rua Xavier de Toledo, no centro, são todos diferentes, mas têm elementos que os unem, há um padrão, algo que se perdeu na capital lá pela década de 70", considera.As Operações Urbanas, pondera, não tem um "plano master", como as interferências semelhantes desenvolvidas em outras capitais do mundo. "No projeto Novo Bairro, na Barra Funda (proposta de Euclides de Oliveira para ocupação dos terrenos vazios do bairro na zona oeste), havia esse esse padrão, de uma ocupação altamente adensada em prédios de oito andares, formando quase que superquadras, mas o projeto foi abandonado."TIETÊ E PINHEIROSPaulo Mendes da Rocha, segundo brasileiro a vencer o Pritzker, espécie de Oscar da arquitetura, é o outro arquiteto homenageado na BIA - o primeiro ganhador, aliás, foi Niemeyer em 1988. Na sala dedicada a Mendes da Rocha, será apresentado um extenso estudo em que se propõe a requalificação urbana de espaços degradados e abandonados da capital, tendo os Rios Tietê e Pinheiros como elementos integradores - ou seja, como via de transporte para veículos aquáticos, como balsas, entre vários pontos.Ao todo, Mendes da Rocha propõe um plano que cobre 9 milhões de metros quadrados. Plantas, maquetes e imagens sugeridas pelo arquiteto também estarão expostas numa mesa de 40 metros de comprimento. "Não é projeto, é uma reflexão sobre a cidade", explica o homenageado pela BIA. "A Bienal não está aí para resolver os problemas da cidade, de coisa nenhuma, mas para ampliar horizontes."Nas duas mostras competitivas do evento - Exposição Geral de Arquitetos e o Concurso Internacional de Escolas de Arquitetura -, conta Magalhães, os horizontes do público e do privado serão ampliados em propostas, principalmente, de residências sem muros e sem tanto apelo à segurança - e de padrões arquitetônicos incomuns. "O apelo da violência urbana tem ditado tudo o que tem sido produzido, da clínica à residência", analisa.Arquitetos e projetos internacionais que agitam o setor no mundo também estarão presentes no prédio do Ibirapuera. O espanhol Joan Busquets, pai da renovação urbana de Barcelona (Espanha) apresentará detalhes desse trabalho. O britânico Michael Hopkins, que tem projetos executados de Dubai a Tóquio, é outro convidado. Escritórios de jovens arquitetos que têm estampado revistas especializadas, como os dinamarqueses Morten Schmidt e Bjarne Hammer ou os suíços Emanuel Christ e Christoph Gantenbein, vão comparecer à BIA.O escritório francês Jacob + MacFarlane apresentará projetos que misturam arquitetura a tecnologia digital. A ONL Architects, de Roterdã, do arquiteto holandês Kas Osdterhuis e da artista plástica Ilona Lenard, apresentarão projetos futuristas que marcam seu trabalho, feitos com muito aço e vidro. Por sua vez, o japonês Shuhei Endo, conhecido como "o rei do aço", trará sugestões de prédios que caracterizaram o seu estilo, repleto de formas inusitadas e retorcidas. "Os arquitetos internacionais também trabalham a questão do público e do privado na arquitetura, trazendo novidades ao debate que existe desde sempre", afirma o curador Magalhães.

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