Arquitetura (quase) perdida em São Paulo

Projetos de restauro dão esperança a obras assinadas por mestres

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

18 Abril 2009 | 00h00

Nas infinitas cicatrizes urbanas de São Paulo é inevitável encontrar histórias mal-acabadas. Ao longo dos anos, proprietários se encarregaram de bancar reformas, muitas vezes sem muito critério, em construções assinadas por vultos como Oscar Niemeyer, Álvaro Vital Brasil e Abelardo de Souza.Niemeyer tem 12 projetos arquitetônicos executados em São Paulo. Entre eles, o Edifício Califórnia, de 1951, na Rua Barão de Itapetininga, cheio de problemas de conservação - a começar pela fachada, cujos três pilares estão pintados cada qual de um tom. Há um mês, a situação era pior. Os comerciantes da galeria no térreo tinham avançado para a rua, "tapando-os". A Subprefeitura da Sé se encarregou de obrigá-los a respeitar o recuo. No saguão de entrada, um imenso painel abstrato de Candido Portinari, medindo 135 m², rouba a cena. Ao olhar de perto, a triste surpresa: faltam peças do mosaico.A boa notícia é a parceria entre o condomínio e a União das Instituições Educacionais do Estado de São Paulo (Uniesp). A entidade adquiriu o espaço de 2 mil metros quadrados do edifício e fará ali um centro cultural e se comprometeu a restaurar, num primeiro momento, o painel abstrato e o espaço adquirido, onde era o Cine Barão - gasto estimado entre R$ 5 milhões e R$ 6 milhões. "Vamos reconstituir o que era original", diz Fernando Costa, presidente da Uniesp. A galeria é tombada desde 1992. Antonio Paglione, que começou a trabalhar lá em 1971 como faxineiro e foi promovido a zelador 11 anos depois, também espera pela reforma da fachada. A entidade se comprometeu a levantar R$ 1,8 milhão para a obra. "Tenho saudade mesmo é do Cine Barão, porque assistia a filmes sem pagar", lembra.Também assinado por Niemeyer, o Edifício Triângulo, de 1955, na esquina das Ruas José Bonifácio e Quintino Bocaiuva, não tem a mesma sorte. Há cerca de duas décadas, foram retirados os brises e, em sua entrada, o painel de Di Cavalcanti, tombado em 2004, está em péssimo estado. "Tem muitos que trabalham aqui e nem sabem onde está o painel. Meu sonho é vê-lo restaurado", diz o zelador Everaldo dos Santos.Marco da arquitetura modernista, o Edifício Esther, na Rua 7 de Abril, sofre com anos da degradação. "Criamos até uma comissão de restauro, para tentar viabilizar um projeto", conta a advogada Márcia Olmos, cujo escritório ocupa um apartamento da cobertura, onde morou o pintor Di Cavalcanti. Pelo orçamento de 2005, a obra custaria R$ 6,1 milhões.Ao longo dos anos, foram construídos "puxadinhos" nos terraços e o acabamento foi modificado. Colunas internas, arredondadas, ganharam ângulos retos. Protegido pelos órgãos de conservação municipal e estadual, o prédio é visado pela Prefeitura para ser a nova sede da Secretaria da Educação. Em 2008, foi objeto de um decreto de utilidade pública, mas a negociação com os proprietários promete ser complicada.Já o Edifício Nações Unidas, na Avenida Paulista, deve passar por reformas em breve. "Vamos modernizar o material de acabamento", afirma o síndico Luiz Vieira. Projetado por Abelardo de Souza, o conjunto já sofreu uma descaracterização importante em 1974, quando foram retirados os brises, de madeira, de sua fachada. Entre as mudanças previstas pelo síndico, orçadas em R$ 950 mil, está a troca do piso - de pedra mineira - por granito. Em 2004, o Conpresp abriu o processo de tombamento do edifício.Nos Jardins, resta relativamente original apenas um exemplar do conjunto de 17 casas criado pelo artista plástico Flávio de Carvalho nos anos 1930. "O poder econômico e a ignorância das pessoas causaram essas reformas que o descaracterizaram", diz Lucita Marques da Costa, a proprietária do remanescente. "Hoje, o meu é o mais valorizado."A única reforma foi realizada há 15 anos. O enorme banheiro virou dois e sala de jantar e cozinha foram unificadas. "Quando encontrei, foi a amor à primeira vista", admite Isabel Machado, dona da loja Rosa Preguiçosa, que funciona no endereço. A vila está em processo de tombamento desde 2004. Para o arquiteto Lúcio Gomes Machado, da Universidade de São Paulo, as pessoas precisam entender que um imóvel preservado acaba valorizado. "Sempre existirá um público que quer morar em prédios de grife."

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