Articulação de Temer aumenta decibéis da vice

Vice-presidente muda rotina e transforma gabinete em disputado escritório político frequentado por parlamentares e ministros

Christiane Samarco, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2011 | 00h00

Expoente do PMDB, em quase um mês de trabalho Michel Temer mudou o cenário, as funções, o público e até os decibéis nos 1.200 metros quadrados que compõem a Vice-Presidência. A nova rotina transformou o corredor silencioso, onde visitantes eram proibidos de circular falando ao telefone, numa pista movimentada pelo entra e sai das 17 portas da Vice.

A jornada na Vice têm se estendido por 12, 13 horas. Os longos expedientes se explicam sobretudo pela intensa articulação política do vice nos bastidores, sobretudo para intermediar interesses do PMDB no governo. As visitas não param e os chamados do Palácio do Planalto também não. "Temer tem força política porque costurou a unidade interna do PMDB antes de aportar na Vice", diz o ministro Wellington Moreira Franco, que só assumiu a Secretaria de Assuntos Estratégicos graças a Temer. Tem sido tão intenso o movimento de ministros, prefeitos, magistrados, empresários e parlamentares no gabinete de Temer que o garçom Abimael Andrade diz que só está "aguentando o rojão" porque é maratonista, com 110 troféus.

"Antes, eu servia uns 30 cafezinhos em dia de movimento. Agora, são 90 em média", diz o garçom, há seis anos na copa da Vice-Presidência da República.

"O vice, em princípio, não tem muito a fazer. Mas, curiosamente, no meu caso a demanda tem sido espantosa", afirma Temer, minimizando as articulações que tem feito nos bastidores.

Bombeiro. A primeira missão de Temer foi impedir que a disputa entre partidos aliados por cargos afetasse a definição sobre os comandos da Câmara e do Senado. Com o ambiente político tenso, telefonou à presidente. "Eu ia esperar até segunda-feira, mas a situação está ficando ruim. Acho que vale a pena conversarmos, a senhora, o (Antonio) Palocci (ministro da Casa Civil) e eu", sugeriu na primeira quinta-feira do novo governo. Desde então, articula sem parar, oscilando entre a defesa dos interesses do PMDB e o papel institucional de vice. Por dever partidário, tomou as dores do líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), que protestara contra demissões de aliados pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Na segunda semana, quem deu mais trabalho foi Palocci, inconformado por ter sido apontado como traidor pelo líder do PMDB, que mantivera um petista no comando da Embratur, a seu pedido. Na presença de Dilma, ele comunicou que o presidente da estatal indicado pelo PT sairia do cargo e justificou: "Não quero aparecer como traidor." Não foi fácil convencer Palocci a recuar da demissão para não ampliar ainda mais a crise entre os dois partidos.

Temer também tem atuado para controlar o PMDB paulista, no vácuo deixado pela morte de Orestes Quércia.

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