Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

Artigo: De monge rebelde a símbolo de transformação

Lutero rapidamente se tornou referência para os anseios que ecoavam na Europa da época

Lauri Emilio Wirth*, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2017 | 03h00

Segundo o historiador francês Lucien Febvre, a Alemanha dos finais do século 15 e começos do 16 é uma terra “inquieta, surdamente palpitante de paixões mal contidas, que esperava apenas um sinal, um homem, para revelar em público seus secretos anseios”. Esta inquietação social generalizada é a expressão local de uma Europa em crise, marcada pelo esgotamento do feudalismo e da tradicional mentalidade artesã, e o prenúncio de um sistema em que as relações humanas passavam a ser mediadas pela economia de mercado.

Mas a Alemanha tinha suas especificidades. Longe de se configurar como um país, tratava-se de um conglomerado de principados, ducados, condados e assemelhados, que ainda preservavam intacta a estrutura do mundo feudal ao mesmo tempo em que competiam por espaço territorial e poder político com cidades imperiais, relativamente independentes, muitas delas com projeção internacional. 

Neste contexto, a religião se oferecia como um horizonte viável de convergências, numa sociedade permeada por conflitos e contradições de toda ordem, mas ainda estruturada em torno do imaginário religioso. Neste ambiente, a igreja ainda se pretendia portadora de uma verdade única, emanada diretamente de Deus.

Assim, mais do que restringir-se a dilemas estritamente religiosos, a trajetória de Lutero expressa o espírito de uma época em profundas transformações, não só nas relações prático produtivas dominantes no mundo de então. Novas visões de mundo e novos regimes de verdade, cujos prenúncios sempre sufocados já ecoavam há séculos, agora encontravam um ambiente propício para ocupar o palco dos acontecimentos de forma irreversível.

Filho de mineiros pobres, mas em trajetória social ascendente, a biografia de Martinho Lutero é marcada por deslocamentos. Nasceu em Eisleben, uma pequena cidade na região da Turíngia, em 1483. Foi criado em Mansdfeld, um povoado de mineiros e mercadores.

Uma primeira tentativa de buscar formação qualificada, aos 14 anos, na cidade de Magdeburg, um centro urbano na Alemanha de então, fracassou por problemas de saúde e pelos maus tratos sofridos na ordem religiosa que o acolhera. Finalmente, acolhido por parentes e amigos da família, primeiro em Eisenach e, posteriormente, em Erfurt, Lutero encontrou o caminho para os estudos universitários. Por influência da família, pretendia estudar direito, a carreira acadêmica mais prestigiada de então, ao lado da medicina e da teologia.

A opção pela vida monástica ao ingressar na ordem dos agostinianos, em Erfurt, em 1505, não decorre apenas da trágica experiência de quase ter morrido numa tempestade. Foi o gesto radical que repercute o ambiente espiritual da época, uma tentativa de fugir de um Deus terrível e vingativo, cujas ameaças ecoavam permanentemente nas pregações dos mestres da vida cristã de então.

Contudo, a vida monástica apenas aprofundou esta percepção de estar irreversivelmente entregue a um juiz implacável e insensível aos esforços para merecer a misericórdia divina. Ao menos é isto que Lutero recorda em suas conversas à mesa, agora como professor de Teologia na recém-criada Universidade de Wittenberg e já casado com a ex-freira Catarina de Bora: “Fui, durante vinte anos, um monge piedoso. Rezei a missa diariamente. De tal maneira me esgotei em orações e jejuns que não teria vivido muito mais tempo, se lá tivesse permanecido”.

Em Wittenberg, Lutero logo de destacaria por seu carisma como pregador e como perspicaz explicador dos textos sagrados. Mas também ali perseguia a pergunta que inquietava toda uma geração de seu tempo. Em que consiste a justiça de Deus? Tratar-se-ia de uma justiça formal de leis e ordenamentos jurídicos, que invariavelmente confrontava os crentes com suas dívidas impagáveis e os ameaçava com uma condenação eterna?

Ao contrário do que ensinava a teologia normativa de então, Lutero se convence de que a justiça de Deus se revela no texto sagrado e só é acessível pelos caminhos da fé. Assim, a justiça de Deus não dependeria de méritos, mas seria absolutamente graciosa. A conexão do crente com esta justiça não decorreria do convencimento racional e lógico. Ela equivale a uma revelação, decorrente da relação altruísta e amorosa com as necessidades e as dores dos outros, que cotidianamente interpelam os crentes.

O ser humano, tocado por esta realidade, aceitaria sua miséria moral e saberia da sua incapacidade de superá-la por suas próprias forças. Descobrir-se-ia injusto quando referenciado em sua própria racionalidade, quando cativo de seus próprios desejos, quando dependente de seus limitados méritos. Ao mesmo tempo, pela fé, alcançaria a confiança na misericórdia de Deus, que não lhe imputaria suas limitações e o libertaria para tornar-se um Deus para os outros, como veículo e sinal da graça divina, um carregador de cruzes alheias, como expressão de liberdade de quem se sabe dependente incondicionalmente da graça de Deus. A salvação perseguida como meta pela teologia normativa de então, agora se revelaria como fundamento idealizado e absoluto de um perfil de vida a ser trilhado cotidianamente, em total liberdade. Livres para servir, seria o novo lema da sociedade imaginada por Lutero.

Um episódio político, em 1517, abriu passagem aos questionamentos do monge rebelde para a esfera pública. Um jovem aristocrata de 23 anos, Albrecht de Brandenburg, havia sido sagrado arcebispo de Magdeburgo e Mogúncia. Para arcar com os custos devidos ao Vaticano por tais concessões, recebera do papa a autorização para vender indulgências, uma espécie de crédito adquirido pelos fiéis para aplacar as dívidas oriundas dos pecados já cometidos e por cometer. 

Trata-se de uma estratégia penitencial praticada há séculos pela igreja, como forma de reintegração de faltosos ao convívio social. Com o passar dos tempos, esta prática de piedade popular se transformaria em verdadeiro mecanismo de controle das consciências, uma genial estratégia de acumulação nas mãos da igreja, na medida em que as relações humanas se transformavam em relações de mercado. 

É o que está ocorrendo na Alemanha, quando Lutero, numa atividade acadêmica, em 31 de outubro de 1517, convocou um debate sobre 95 teses para esclarecer o real valor das indulgências. O debate nunca ocorreu, mas o impacto do conteúdo provocativo e desafiador das 95 teses abalaria a cristandade da época de forma irreversível.

Lutero rapidamente transformou-se em referência para os anseios por reformas que há muito ecoavam na Europa de então. Seus escritos, geralmente polêmicos e questionadores do pensamento hegemônico, rapidamente se transformaram em sucesso editorial inédito na época. Um emissário papal enviado à Alemanha fazia a seguinte constatação: “Nove em dez alemães estão gritando: ‘Viva Lutero’, e o resto, embora não o seguindo, junta-se ao corpo para gritar: ‘Morte a Roma’”.

Em janeiro de 1521, Lutero é declarado herege e excomungado da igreja. Convocado para renegar seus escritos diante do imperador Carlos V, em abril do mesmo ano, pronunciou a sentença que, em poucas palavras, sintetiza a convicção de que ninguém pode reger a consciência alheia e que a verdade religiosa doravante será resultado de debates e nunca imposta por uma autoridade: “A menos que me convençam, por testemunhos das Escrituras ou por uma evidência da razão (pois não acredito apenas no papa e nos concílios: está provado que por vezes demais erraram e se contradisseram), tenho um compromisso com os textos que produzi; minha consciência é cativa das palavras de Deus. Não posso e nem quero revogar o que quer que seja, porque agir contra a própria consciência não é seguro nem honesto. Que Deus me ajude, Amém! ”

Proscrito pelo imperador, Lutero contou com a proteção de autoridades simpáticas a sua causa, que assim impediram que ele tivesse o mesmo fim que milhares de hereges antes dele, o que evidencia a perda de poder tanto do papa como do imperador, num contexto político de afirmação dos Estados nacionais.

Em 1526, uma assembleia dos príncipes alemães determinou que cada príncipe estaria livre para agir em seu território em relação à matéria religiosa, até que um Concílio definisse a questão. Em 1529, outra assembleia de príncipes exigia a recatolização da Alemanha. Os príncipes fiéis à Reforma divulgaram um protesto formal contra esta pretensão. Desde então os adeptos da causa luterana são conhecidos como os protestantes. A estas alturas as fronteiras contra e a favor da Reforma estavam claramente delimitadas. 

Uma guerra entre católicos e protestantes parecia eminente. Em 1530, o imperador volta à Alemanha, em nova assembleia de príncipes, realizada na cidade de Augsburgo. Os protestantes lhe apresentam um documento com os fundamentos de sua fé. A Confissão de Augsburgo até hoje é tida como o principal escrito confessional dos luteranos. A partir de então, a causa da Reforma é mais uma questão política que propriamente teológica.

Mas a estas alturas, o movimento da Reforma já havia exposto suas fissuras e profundas contradições internas. Em 1525, um levante camponês reivindicava transformações radicais no regime de trabalho feudal e nos mecanismos de apropriação da renda do trabalho, um movimento que Friedrich Engels definiria como a primeira revolução em solo alemão. Citado pelos camponeses rebeldes como uma referência para suas reivindicações, Lutero, após fracassar em diversas tentavas de negociação, tomou partido ao lado dos príncipes, o que, para muitos pesquisadores do conflito, marcou o fim da Reforma Protestante como movimento popular.

Lutero morreu no dia 18 de fevereiro de 1546, em Eisleben, sua aldeia natal, onde se encontrava de passagem para mediar um conflito entre a aristocracia local. O que já então sobrava de sua sociedade imaginada fica evidente em seu próprio depoimento marcadamente pessimista: “Até agora, cometi a loucura de esperar dos homens algo que não reações humanas. Pensei que poderiam se conduzir segundo o Evangelho. O resultado nos mostra que, fazendo pouco do Evangelho, querem ser coagidos pela espada e pelas leis”.

* É teólogo e professor da Universidade Metodista de São Paulo

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