As armas que os candidatos vão levar

Dilma deve associar Serra a 'passivos' da era FHC; tucano pretende se mostrar com mais ideias e preparo, e Marina quer ser a alternativa

, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2010 | 00h00

Dilma usará dados de SP para irritar tucano

À frente nas pesquisas de intenção de votos, Dilma Rousseff (PT), deverá ser o alvo preferencial dos adversários no debate de hoje. A avaliação é do próprio comando político da campanha. Diante da constatação, a ex-ministra passou os últimos três dias em reuniões com coordenadores políticos e de marketing discutindo estratégias.

Além de fixar sua biografia ao presidente Lula e ao atual governo - o que já é linha mestra da campanha -, a petista apresentará propostas concretas para um próximo mandato.

Há um receio entre os coordenadores da campanha de que repetir à exaustão dados do atual governo possa passar a impressão de que Dilma está à sombra de Lula, sem ter ideias próprias. Essa é, aliás, a tese que seu principal adversário, José Serra (PSDB), sustenta. "A Dilma se mostrará como uma pessoa propositiva", disse o presidente do PT e coordenador da campanha, José Eduardo Dutra.

Disposta a tirar o tucano do sério, Dilma vai explorar o que sua equipe define como "pontos fracos" do tucano quando governou São Paulo: educação e segurança pública. Uma das estratégias será lembrar graves problemas de segurança no Estado e citar dados da Organização Mundial da Saúde indicando que a taxa de homicídios virou "epidemia". No quesito educação, a candidata baterá na tecla de que Serra, quando governador, não valorizou os professores.

Para os aliados da candidata, o debate terá o propósito de desmistificar a imagem de que a petista estaria fugindo de confrontos diretos com Serra. Com esse propósito, Dilma selecionou e memorizou perguntas para os três adversários, além de ter treinado respostas rápidas, diretas e concisas. "Só quem não conhece a Dilma acha que ela não está preparada. Ela tem todos os dados do governo e os desafios do futuro na ponta da língua", reagiu o ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais).

Ontem, a petista almoçou com o ministro Guido Mantega (Fazenda), com quem repassou dados econômicos para comparar os governos Lula e Fernando Henrique Cardoso.

A candidata foi orientada a esperar dois tipos de abordagem de Serra: uma mais agressiva e outra mais amena, porém muito experiente. Se necessário, ela vinculará a imagem de Serra ao governo FHC. Nos bastidores, porém, os petistas não apostam que o tucano manterá o tom agressivo. Recordam o debate de 2006, na Globo, entre Lula e Geraldo Alckmin, quando o tucano optou por uma linha raivosa e agressiva.

O marqueteiro João Santana e a jornalista e consultora de imagem Olga Curado foram presenças constantes no treinamento de Dilma. / MALU DELGADO, VERA ROSA e JOÃO DOMINGOS

Serra vai rebater ataques a FHC

O candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, foi preparado por uma equipe de oito pessoas para responder a ataques da adversária Dilma Rousseff (PT), a respeito de sua participação no governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Na avaliação dos tucanos, a petista vai criticar a gestão FHC e compará-la aos números positivos do governo Luiz Inácio Lula da Silva. A armadilha, segundo integrantes da campanha, será associar Serra a "passivos" do governo anterior.

Os estrategistas da campanha também querem que Serra não seja agressivo. Avaliam que o ideal é que o candidato seja "light", aproveitando a experiência que adquiriu nas eleições anteriores para esbanjar segurança e clareza.

Serra se reuniu nas noites de sábado e de domingo, em seu escritório em Pinheiros, na capital paulista, com os marqueteiros Luiz Gonzalez e Woile Guimarães, o estrategista Felipe Soutello, a coordenadora da campanha na internet, Soninha Francine, e o sociólogo Eduardo Graeff para discutir o debate.

Também estavam no grupo integrantes da equipe do tucano no Palácio dos Bandeirantes e na Prefeitura de São Paulo. Levaram dados da gestão de Serra na capital e no Estado - avalia-se que grande parte das críticas da adversária será dirigida à administração Serra em São Paulo.

Na noite de ontem, estava previsto outro encontro para definir pontos do debate, como as perguntas que o tucano fará à petista.

Os tucanos querem explorar temas polêmicos para o PT, como a relação do partido com o Movimento dos Sem-Terra. Mas a avaliação dos tucanos é que as perguntas desse assunto não devem ser feitas diretamente por Serra para não soar provocação. A tese é de que esses temas surgirão naturalmente, colocados pelos outros candidatos ou pelos jornalistas presentes no encontro. Serra, avaliam, deveria aproveitar os momentos de tréplica para lançar assuntos sobre os quais Dilma não poderá dar a palavra final.

A orientação é evitar confronto e ganhar espaço, em um debate ameno, para ser propositivo. Segundo assessores, Serra tem de mostrar que "tem mais ideias, que as ideias são concretas e que tem mais experiência para governar melhor". Para isso, dizem, o ambiente de confronto não ajudaria o candidato.

Os próprios tucanos, no entanto, fazem uma ponderação. Um debate, por mais calculado que seja, nem sempre transcorre do modo esperado. E, às vezes, a troca de acusações foge do controle. De qualquer maneira, serão feitas pesquisas qualitativas no decorrer do programa. A reação dos grupos servirá para balizar o comportamento de Serra no debate. / JULIA DUAILIBI e CHRISTIANE SAMARCO

Marina dirá que ideias rivais estão superadas

No comitê de Marina Silva o clima nos últimos dias foi de euforia. Para seus assessores, o debate será a primeira oportunidade de grande alcance para a candidata mostrar ao eleitorado que suas propostas constituem, de fato, uma alternativa ao modelo de desenvolvimento em curso no País.

Marina vai tentar uma operação delicada. Sem acusações nem confrontos pessoais, procurará mostrar que as ideias de Serra e Dilma estão ultrapassadas, do ponto de vista do desenvolvimento sustentável. O crescimento a qualquer custo é coisa do século 19, segundo Marina. Ela chama os concorrentes de crescimentistas e sugere que ignoram as possibilidades de uma nova economia, com fontes de energia alternativa.

Um dos focos das intervenções da candidata verde será a questão da educação. Vai enfatizar que o Brasil vive um bom momento, grande oportunidade histórica de desenvolvimento, que pode ser perdida se não forem feitos investimentos pesados em educação, ciência e tecnologia.

A senadora também insistirá na tecla dos investimentos em infraestrutura. É nessa hora que se dirigirá mais diretamente à candidata petista, afirmando que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) não passa de um programa de gerenciamento de obras, sem nenhuma visão estratégica.

ROLDÃO ARRUDA

Plínio vai se apresentar como único alternativo

Com menos de 1% das intenções de voto, segundo a última pesquisa Ibope, o candidato do PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, é o que tem menos a perder no debate. Sem medo da popularidade do presidente Lula, vai criticar abertamente a política econômica que ele adotou, seguindo os passos de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Segundo Plínio, essa política não promove a inclusão social, como se alardeia.

A verdade, assegura o candidato do PSOL, é que as desigualdades aumentaram e vão continuar aumentando no caso de vitória de Dilma Rousseff, José Serra e até de Marina Silva - cujas propostas de política econômica não diferem essencialmente das dos outros dois candidatos. Sob esse viés, ele vai procurar se apresentar ao eleitorado como a única candidatura de fato alternativa, com um viés socialista.

Segundo Plínio, que já foi militante do PT e amigo de Lula, a política econômica atual provocou melhora superficial, com inclusão de mais pessoas no mercado de consumo. Mas não trouxe melhoras básicas, nas áreas de educação, saúde, segurança, reforma agrária. Se tiver oportunidade, deve criticar a gestão de Serra à frente do governo do Estado, apontando problemas nas áreas de educação e saúde. Sobre Marina, vai dizer que defende um modelo ecocapitalista. / R.A.

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