As cidades mais solteiras do País

Pesquisa mostra onde estão os desimpedidos; número de solteiros subiu quase 70% desde a década de 90

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

10 Agosto 2008 | 00h00

O jantar sempre aparece misteriosamente em cima da mesa, como em um passe de mágica. A roupa também se lava sozinha, as contas de água e de luz aparecem pagas, os pratos vão direto para a lavadora, o lençol da cama surge arrumado de uma hora para a outra. Por esses e outros truques de abracadabra, o advogado Leonardo dos Santos Marquesine, de 33 anos, nunca saiu da casa dos pais. Nem pretende. "É meio Harry Potter, sabe, eu chego em casa e está tudo bonitinho no lugar", brinca ele, sem namorada fixa há dois anos. "Não tenho vergonha de morar com os pais e depender deles. Tenho muita coisa pra conquistar e resolver antes de casar, morar sozinho, namorar firme." Se no passado Marquesine teria de rebolar para explicar aos parentes por que vivia só, sem namorada e aparentemente sem rumo, hoje a sua história parece até bobinha, corriqueira. Solteirões convictos como ele, que comemoram sem vergonha o Dia do Solteiro no próximo dia 15, formam uma das parcelas da população que mais inflam no País - é um universo sem padrões predefinidos, que vai desde profissionais no começo de carreira que querem fazer uma poupança antes de sair debaixo da asa dos pais até o recém divorciado em busca do tempo perdido. De acordo com o censo 2000 do IBGE, há quase 53 milhões de pessoas com mais de 18 anos solteiras, equivalente a 30% da população, um número 70% maior do que na década de 90. Em algumas cidades, esse índice de solteirice é ainda maior. Segundo uma pesquisa inédita do Instituto Ipsos/Marplan/EGM, realizada em nove cidades durante o período de abril de 2007 a junho deste ano, a Salvador do axé e das micaretas é a capital brasileira dos solteiros - 45% da população acima dos 18 anos está sozinha, ainda em busca da sua tampa da panela. Para os homens de lá, não deixa de ser uma ótima notícia, já que 53% da classe solteira soteropolitana é formada por mulheres. "Por um lado é bom porque sempre tenho uma batelada de amigos solteiros, dá para sair e beber sem cobranças, ninguém tem vergonha atualmente de se afirmar solteiro. Mas também é difícil arrumar alguém para namorar porque todo mundo só quer farrear", diz a professora de inglês Silvana Marques, de 35 anos, criadora da comunidade "Solteira em Salvador" no Orkut. No segundo lugar desse ranking está Brasília, com 41% de solteiros (51% homens e 49% mulheres), seguida por Belo Horizonte, com 40% (52% homens e 48% mulheres), e Fortaleza, com 38% (49% homens e 51% mulheres). MERCADO AQUECIDO A pesquisa da Ipsos, que também mapeou as tendências de comportamento dos solteiros, ainda mostra que é mais fácil conhecer alguém interessante nos corredores de um shopping center (54% dos solteiros freqüentam esses locais habitualmente) do que na pista de dança de uma balada (apenas 31% vão para danceterias). Assistir a jogos de futebol no estádio, cozinhar nos fins de semana para os amigos e ficar simplesmente em casa assistindo DVD também são atividades bem mais populares do que ir a concertos e mesmo malhar na academia. "Seja para onde for, acho que o solteiro sai muito mais, curte mais a cidade", diz o advogado (e solteiro, claro) paulistano Rubens Lancaster de Torres, de 32 anos. "É um jeito também de não se sentir sozinho. Só na noite de São Paulo, entre bares e baladas, acho que gasto algo em torno de 30% do meu salário todo mês." O microempresário Fábio Franco, de 31 anos, que ainda divide o teto com os pais, também lamenta um pouco quando lembra do dinheirão gasto na sua vida de solteiro. "Ah cara, bastante viu...", diz. "Desde que deixei de ficar noivo, em maio do ano passado, devo ter gasto o valor de um carro popular só em viagens e festas, com certeza." Toda essa quantidade de informações obviamente faz brilhar os olhos do mercado. "Hoje em dia, quem dita boa parte das tendências do mercado de consumo são os solteiros, justamente porque eles podem gastar mais com suas próprias vontades", diz o professor de Economia da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), José Eduardo Amato Balian. A idéia de que o mundo é dos casados cai por terra diante desses números. No período de 1996 a 2006, o número de casamentos entre solteiros caiu 15%. E em 2006, os divórcios cresceram 7,7% em relação ao ano anterior. "Animais de estimação, prédios para pessoas sozinhas, alimentos pré-prontos, empresas de turismo especializadas, restaurantes, cinemas, bares, teatros, shows.... Todos esses mercados e setores crescem por causa dos solteiros. Quanto mais solteiros, melhor."

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