As cores e as marcas da rua nas próprias casas

Grafiteiros acostumados a ?quebrar? o cinza da cidade reproduzem seus traços em quartos, banheiros, cozinha...

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

18 Julho 2009 | 00h00

Ao longo de 15 degraus, um mosaico da arte paulistana de rua. São 31 obras de grafiteiros conhecidos como Bugre, Pato e AKN, penduradas ao longo da escada, em espaço batizado de "corredor dos amigos". Fica num sobrado do Paraíso, zona sul da capital, residência de sete grafiteiros que reproduzem nas paredes dos quartos, banheiros, sala e cozinha exemplos do que criam lá fora, nos muros e viadutos da capital. Numa viagem pela arte particular dos grafiteiros, o endereço é invertido: não é a casa que fica na rua, mas a rua que está dentro de casa.Nas diferentes residências, características próprias de cada artista. Na república dos grafiteiros, não há ambiente que escape: são dez cômodos, preenchidos com cerca de 200 obras e intervenções artísticas. No sobrado em que vive o grafiteiro dos muros de imagens históricas, livros de fotografias antigas; na casa de um jovem talento que mora com os pais, a família pendurou tela de três metros na parede da sala; e, na residência do artista do subterrâneo, as botas de borracha que secam ao sol e a tampa de bueiro encostada na porta indicam algo da personalidade de quem vive ali.Foi em 2006 que os primeiros artistas se mudaram para o sobrado do Paraíso, dispostos a criar em conjunto. Hoje, sete grafiteiros vivem na casa, em um grupo chamado Coletivo 132. "Aqui, crescemos juntos, acompanhando a evolução e transformação da arte de cada um. Não é bagunça. Todos têm seus trabalhos. O espaço é de produção", afirma o grafiteiro Rafael Sliks, de 28 anos, que mora na república desde que foi criada, há três anos.Nos cômodos da casa - construída para moradia "tradicional", com cristaleira embutida e ornamentos de gesso nas paredes -, cada canto revela marcas de seus habitantes. Perto da janela da sala há um pequeno cacto. Entre os espinhos da planta, finos traços de spray azul. Dentro dos quartos, com paredes repletas de telas, além de camas, escrivaninha e armários (grafitados), há cavaletes.No box do banheiro há um shape (prancha) de skate, todo grafitado, pendurado ao lado do suporte de sabonete. Mesmo na cozinha, entre o filtro de água e a geladeira, ficam quatro telas produzidas pelos moradores. Na varanda do sobrado, a prova de tanta produção - ao lado da churrasqueira, cerca de 700 latas de spray, em pilha que chega a um metro de altura. "Se em outras repúblicas são empilhadas latas de cerveja, nós empilhamos latas de spray", brinca o grafiteiro Enivo, de 23 anos, outro morador da casa.GELADEIRA HISTÓRICAEm outro ponto da zona sul, as marcas de que se trata de residência de grafiteiros não são tão visíveis. As paredes são, simplesmente, brancas. Mas o botão da campainha está salpicado de tinta azul, na calçada há tinta vermelha... Na estante da sala de Eduardo Kobra, criador do projeto Muros da Memória, que já grafitou a São Paulo antiga em 20 pontos da capital, latas de spray dividem espaço com livros de fotografia, matéria-prima para suas obras na rua. A poltrona da sala é peça de destaque: forrada pelo pai de Kobra, tapeceiro, a estampa feita a spray retrata um calhambeque de 1910. Na cozinha, geladeira Frigidaire da década de 1950, da General Motors, recebeu pintura que retrata os bondes que cruzavam a Avenida São João na década de 1930. "Dá prazer em deixar a casa com minha marca registrada", diz Kobra, do quarto, ao lado de um cabideiro encontrado no ferro-velho no qual personagens de época foram retratados. Decorando dois ambientes do sobrado, duas grandes telas, baseadas em imagens de Aurélio Becherini, fotógrafo da capital no início do século 20. "Houve um tempo em que havia letras de hip-hop em todas as paredes de fora, era outra fase do meu grafite", conta. "Quem não entendia era a família. Minha mãe ficava louca." CORUJASUm dos talentos da nova geração, o grafiteiro Finok, de 23 anos, mora com os pais. Para deixar sua marca, nem precisou convencer a família. Foi a própria mãe quem "encomendou" duas telas ao filho, ao perceber a evolução do seu trabalho nas ruas. Hoje, a sala de casa é decorada com um painel figurativo de três metros de largura, que toma a parede inteira."Tinha gente que achava que não tinha futuro, que estava desencaminhado", conta o pai de Finok, o geólogo Ricardo Sagarra, de 55 anos, sentado à mesa de jantar do apartamento no Cambuci, zona sul. Acima da mesa, outra tela, que retrata personagens verdes, com traço característico de Finok - figuras poligonais ao redor dos olhos dos retratados. "Arte só dá ideia de futuro depois que estoura. Agora, até os parentes carolas dão parabéns."URBANOIDE CANTAREIRAReconhecido por grafitar vivos traços azuis em galerias de esgoto e em locais degradados da capital, o grafiteiro Zezão cansou da agitação da metrópole. Morador do Brás a vida inteira, há cinco anos vive em um condomínio fechado na Serra da Cantareira, zona norte, afastado um quilômetro do vizinho mais próximo. "Vou uma vez por semana aos subterrâneos, mas, no dia a dia, prefiro ficar com minhas plantinhas", diz.Sua marca registrada também fica nítida na moradia. Logo na entrada da casa há uma tampa de bueiro grafitada em dourado. Na calçada, duas botas de borracha secam ao sol. E, por toda a casa, há pelo menos 15 obras suas. "Ficaram encalhadas nas galerias de arte. Gosto delas, fazem parte de uma história que já passou, mas que não pode ser esquecida."Há também grafiteiros que, simplesmente, não abrem mão de algumas obras. Um dos pioneiros da arte de rua em São Paulo, Celso Gitahy, de 41 anos, além de grafitar a luminária do quarto, pendurou nas paredes as obras favoritas: uma escultura de madeira - o TVnauta, que ironiza a educação - e um carro esculpido em zinco. "Sempre que expus em galerias, queriam comprar de todo jeito", conta. "Mas não quis me desfazer deles, são bonitos demais."E há artistas que preferem, simplesmente, deixar a arte no ateliê. Gustavo e Otávio Pandolfo, os grafiteiros osgemeos, deixam o trabalho para fora de casa. "Casa é para descanso", decreta Gustavo. "Melhor deixar o cheiro de tinta lá fora." Já o grafiteiro Brisola, que pichava até a cabeceira da cama no início da carreira, quando se mudou decidiu que sua casa seria clean. Não durou muito. No início do ano, sacou o spray e grafitou um dragão negro no quarto e faixas em azul, verde e laranja na parede da sala. "Não resisti", disse. Diante dos risos, justificou. "É bonito, ué."

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