FILIPE ARAUJO/AE
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As histórias por trás da fila do teste de DNA

Mulheres e seus filhos são maioria na sala de instituto que atende 70 famílias por dia

Paulo Sampaio, O Estado de S. Paulo

13 Agosto 2011 | 23h24

Exames de DNA para checar a paternidade de bebês exigem a presença na coleta de pelo menos duas pessoas - o pai e o filho. No Instituto de Medicina Social e de Criminologia de São Paulo (Imesc), que é referência no Brasil, eles chamam o duplo comparecimento de "du". Quando vão pai, mãe e filho, o nome é "trio". No caso do analista de suporte Flávio Alcântara, de 38 anos, em que só ele apareceu, a expressão ideal seria "nada feito".

 

Flávio é um caso pouco comum nas cadeiras de plástico rígido da sala de espera que acomoda cerca de 70 famílias por dia. Há visivelmente mais mulheres esperando pais que não aparecem do que o oposto. O não comparecimento de uma das partes, segundo dados do instituto, é de 30% a 40%.

 

Enquanto aguarda pacientemente as "outras partes", entre as 9h30 e o meio-dia de quarta-feira, Flávio conta que sempre se sentiu constrangido, mesmo em família, de dizer que achava que o filho não era dele; mas agora que a avó materna pediu a guarda do menino e, em seguida, pensão alimentícia, ele já se permite até usar a palavra "corno" - sabendo que vai ser publicada no jornal.

 

"Há mais de um ano pago R$ 2 mil de pensão (ou 30% de seu salário). Não gasto isso com cada um dos meus dois outros filhos (de 7 e 3 anos, que teve em um casamento posterior)", afirma o analista, que diz ter namorado a ausente durante seis anos, há cerca de 15. Conta que eles já estavam separados quando ela apareceu grávida mas, mesmo assim, assumiu o filho, registrou e ajudou a criar. Agora, "como o garoto se bandeou para o lado da avó, não faço questão de continuar fazendo o papel de pai".

 

Não existe uma lei que determine o número aceitável para ausências de requeridos no Imesc. Alguns juízes dão até dez oportunidades; outros, depois de três já supõem a paternidade - ou a não-paternidade, se é a mãe que não comparece.

 

12 pais. A advogada Juliana Lugani, que assessora a visita do Estado ao instituto, poderia escrever um livro sobre as histórias que presencia. Diz que já houve casos de crianças com 12 supostos pais. "Já vi mulher traída que engravidou de outro, e chamou o primeiro para fazer o teste, sabendo que não era o pai, só para expô-lo nos mutirões que a gente faz pelo interior", conta.

 

Quem mora no interior não precisa vir à capital. A descentralização do teste abrange 11 cidades, entre elas Ribeirão Preto e Sorocaba, além dos mutirões. Para requerer o teste de paternidade, o primeiro passo é entrar com um pedido na Defensoria Pública. Ali, o requerente precisa provar que não pode arcar com o procedimento. Uma vez iniciado o processo, é preciso alguma paciência.

 

"Entrei com o pedido na defensoria há quatro anos. Já tinha até me esquecido", diz a auditora de vendas Leni Alessandra da Silva, de 26 anos, com o filho Flávio, de 7. Ela namorou o pai do menino por dois anos. Ele não apareceu para fazer o teste. Idem o ex-namorado da operadora de telemarketing Camila Araújo, de 27; ela afirma que a filha Ana Caroline, de 2, "nasceu de seis meses".

 

Antes que alguém pense que a quarta-feira foi um fiasco em termos de comparecimentos no Imesc, um dos poucos pais que ofereceram resignadamente o dedo para a picadinha topou conversar - sem se identificar. Casado, de 47 anos, outros quatro filhos, ele não nega que o bebê pode ser dele - mas, longe da mãe, de 30 anos, afirma que ela tinha outro amante. Ela parece ressentida: "Fez a bobagem, assume. Você tem dúvida de que ele é o pai? Olha os cílios dela..", diz, levantando o rosto da menina.

 

Maria Luiza Salum, de 54 anos, há 8 responsável pelo núcleo de coleta e controle de qualidade, reponde também pela manutenção da civilidade no local. Se alguém começa, por exemplo, a dar socos na mesa, ou a gritar, ela pede ordem no recinto. "Tinha gente que achava que aqui era o programa do Ratinho." Para garantir o rigor no resultado, o instituto relata todo o processo na chamada cadeia de custódia - desde a chegada do "du" ou "trio", seu registro e mútuo reconhecimento, até a aferição.

 

De saída do Imesc, Flávio diz que agora depende do humor do juiz. É ele quem deve decidir se a mãe do garoto vai ter outra chance. "Se o juiz acordar virado no dia da decisão, ferrou."

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