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Previsões reais para 2022: as crises sociais pelo planeta para ficarmos de olho

As crises sociais que devemos ficar de olho, os conflitos que podem ter consequências globais e os dramas humanitários que poderiam contar com nossa ajuda

André Fran, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2022 | 10h00

Começa o ano e com ele as “velhas novas” listas de promessas. O que vou mudar? O que vou priorizar? O que vai dar m…? Mas isso no plano pessoal, né? O que nós, enquanto indivíduos, podemos mudar em nossas realidades para nosso próprio benefício. O foco aqui é perder peso, arrumar um emprego melhor, conquistar a pessoa amada… Mas o aspecto social também é abordado nessa época, a ele ficam reservadas as famosas “previsões”.

Tem de tudo. Vidente apostando que tal time vai ser campeão. Espiritualista dizendo qual parte do globo vai ser arrasada por uma tsunami. Astrólogo cravando que vai rolar guerra. Ano sim, ano não tem um profissional desses afirmando ter chegado o ano do juízo final. Ou da visita de alienígenas por essas bandas. Isso tudo gera uma infinidade de matérias em sites especializados, blogs amadores, reportagens na TV e até longas análises em veículos sérios da imprensa. Rendendo muitos cliques e audiência. Acaba que um outro tipo de previsão fica relegado ao ostracismo. São as análises sérias de tendências geopolíticas realizadas por organizações profissionais e instituições especializadas mundo afora.

Então, se alguém precisa fazer esse “trabalho sujo”, eu me comprometo a apresentar aqui as “previsões reais” para o mundo no próximo ano. As crises sociais que devemos ficar de olho, os conflitos que podem ter consequências globais e os dramas humanitários que poderiam contar com nossa ajuda. Sempre apresentando as devidas fontes e crédito como manda o jornalismo sério, claro. Se olharmos para trás, vamos lembrar que o último ano trouxe: um (novo) golpe em Myanmar, bombardeios em Gaza, o Taliban de volta ao Afeganistão, refugiados na fronteira de Belarus, novos problemas na guerra da Síria, caos em Darfur e muito mais. O que essas situações implicam no mundo de hoje? E, como fazem os profetas desde tempos imemoriais, vamos tentar analisar aqui quais suas consequências para o nosso futuro.

1 - A pandemia não acabou

Sim, a gente já não aguenta mais essa pandemia. Mas ela parece não ter se cansado da gente. Dependendo da parte do mundo em que se encontra, a situação pode estar inclusive pior do que nunca. A OMS afirma que antes de países desenvolvidos pensarem em 3a ou 4a doses, deveriam estar pensando nos países onde a vacina mal chegou ainda. Pelo menos, a variante Ômicron parece ser mais contagiosa mas menos letal, o que pode indicar “o início do fim”, também segundo a organização mundial de saúde.

2 - Rússia versus Mundo

Putin já bateu o pé, se EUA e Europa não fizerem concessões à sua eterna luta contra o avanço da Otan… Quem pode pagar o preço é a Ucrânia. Por outro lado, Biden não quer dar (mais) sinais de fraqueza em seu “início” de mandato logo contra um de seus grandes vilões modernos. Essa queda de braço promete. Ainda mais quando Xi Jinping pode entrar na disputa. E do lado russo, segundo análises do Eurasia Group. Por falar em China…

3 - China e seu querido líder

Xi Jinping deve assumir um histórico terceiro mandato à frente do Partido Comunista Chinês. Há o envelhecimento de sua população, a força de trabalho e consumo da sociedade garantiram grande parte do sucesso do país nos últimos tempos. O momento econômico delicado, seu ousado modelo de crescimento dá sinais de exaustão. A pressão da política de “tolerância zero” quanto à pandemia. Ainda assim, deve haver estagnação, mas o IntelGroup garante que mesmo em meio a essas tensões a China deve manter sua estabilidade e não ousar uma disputa mais ferrenha com os EUA.

4- Vácuo global

Todos já vimos o que o vácuo de poder pode fazer com um país. Mas, em termos globais, o prognóstico pode ser ainda pior, segundo o analista político, Ian Bremmer. Pelos motivos expostos acima, EUA, UE e China não estão muito dispostos a assumir o papel de “polícia global”. Angela Merkel ao deixar seu cargo também deixou a Alemanha de fora dessa posição. Quem deve sofrer com isso? Países em situação de caos e conflito. Particularmente, o Afeganistão foi um exemplo clássico e recente. Mas também podem padecer com o abandono da comunidade global: Myanmar, Iêmen, Etiópia, a região do Sahel e ainda Haiti e Venezuela, o que pode ter consequências, como vimos, aqui no Brasil.

5 - Democracias Hackeadas

Todos vimos o que a Rússia pode fazer em um processo eleitoral (Brexit, Trump…), e vem mais eleições por aí esse ano. E se eu te dissesse que a China também vai atuar forte nessa área? Lembrando que um dos países que vai encarar um tenso e polarizado processo eleitoral somos nós. Tenso, né? A internet seguirá como uma terra de ninguém onde nosso dados pessoais são roubados, onde incels promovem teorias de conspiração que influenciam milhões, onde políticos desonestos disseminam suas fake news, onde os algoritmos provocam a depressão de adolescentes, onde grupos extremistas se organizam e convocam atos de violência… O ciberespaço seguirá  governado por grandes companhias e seus interesses particulares ($$$). Inovações na blockchain, como as finanças descentralizadas, comunidades autônomas, web3, metaverso… Podem combater esse poder. Ou piorar a situação. Resta saber se a comunidade internacional seguirá passive ou finalmente tentará regular esse novo “velho Oeste”.

A nós resta valorizar a imprensa livre, a ciência e seguir questionando todo e qualquer tipo de informação. Na base de todas essas questões está o ser humano, somos os principais causadores e vítimas de todas essas situações. Podemos ser passageiros da agonia ou agentes da transformação. O mundo globalizado, a internet, são armas e ferramentas poderosas a nosso alcance, usemos com sabedoria para que as previsões do ano que vem sejam um pouco mais otimistas. Até lá.

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