As urnas e o jogo paulista

Não apenas porque São Paulo é o maior colégio eleitoral e mais rico Estado da Federação, mas também porque a polarização PT X PSDB se repete, as eleições estadual e nacional aqui se relacionam e se confundem. Se há no Planalto o favoritismo de um governo amplamente aprovado; com sinal partidário contrário, do Bandeirantes se pode dizer o mesmo; se há na esfera federal uma oposição claudicante, de projeto indefinido e alianças em crise, aqui também há. Igualmente, os candidatos não se distinguem pelo carisma e até o quiproquó dos vices é assemelhado. A eleição presidencial passa pelas urnas paulistas e vice-versa.

Carlos Melo, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2010 | 00h00

Diferem-se emoção e personalidade, é verdade. Mercadante não é Serra, e nem Alckmin é Lula, o real protagonista da disputa nacional; o calor estadual é menor que a temperatura nacional. Mas, ainda assim, há ingredientes que farão da eleição paulista uma disputa quente. Para tucanos, além da manutenção do poder - em continuidade aos 16 anos de governo -, a meta é ganhar de lavada, fazendo aqui a diferença de votos que tendem a faltar para José Serra na maioria dos estados. Para petistas, o maior desafio é pôr fim à hegemonia tucana, mas já bastaria perder de pouco, reduzindo as chances nacionais do adversário.

A escolha do candidato tucano, longe de ser natural, foi apenas a mais segura diante desses objetivos. Após os fiascos de 2006 e de 2008, Geraldo Alckmin perdeu poder e consenso. Mas, possui recall e uma boa imagem pela interlândia; é muito competitivo nos grandes centros. No mais, abrir uma ferida interna em São Paulo não seria razoável para José Serra, pois somente a paz pode trazer resultados expressivos em seu território. Assim, a despeito de não ser o predileto, Alckmin tornou-se o favorito e se fez candidato. Do ponto de vista de José Serra, a aliança que fechou com seu adversário íntimo não foi apenas inevitável, mas fundamental.

O ocaso do malufismo deixou em aberto um setor já ocupado por gente como Adhemar de Barros e Jânio Quadros. Não é a cara dos tucanos, mas hoje é Geraldo Alckmin com sua aura conservadora, religiosa e cordata - e não José Serra - quem ocupa esse espaço (na capital, dividido com Gilberto Kassab). É um grande contingente de eleitores, que há tempos o PT anda de olho, mas é o PSDB quem o aglutina em torno de seus candidatos "de centro". Abarca do antigo populismo paulista à centro-esquerda, cuja figura mais representativa é o próprio Serra. A grandeza de Mário Covas consistia em ser os dois e nenhum ao mesmo tempo.

Enfim, um amplo leque de poder que dirige uma economia pujante e moderna, uma estrutura social menos desigual do que no restante do país e serviços públicos e infraestrutura, em geral, mais eficientes. Trata-se de um condomínio político que tem sabido explorar o conservadorismo natural dos paulistas, sobretudo do interior do Estado, e sua reincidente resistência ao PT que, à parte a candidatura de José Genoino, embalada pela eleição de Lula em 2002, tem dificuldades de ultrapassar a barreira do primeiro turno.

Para Aloizio Mercadante, o desafio é grande: confinado à esquerda, às corporações de servidores e às periferias e bairros pobres dos grandes centros, eventualmente, favorecidos pelo Bolsa-Família - mas também por políticas sociais do governo do Estado -, o senador precisa diminuir resistências, dissociar sua imagem de movimentos grevistas que desnorteiam o cotidiano e aguçam, pela proximidade e identidade, as críticas ao PT. Sem romper com aliados antigos, terá que fugir do gueto, abrir fendas no muro tucano, atrair massas populares, já que as classes médias são-lhe naturalmente relutantes: não é por outra razão que tem flertado com lideranças pentecostais e cogitado oficiais PM para a vice. Tem lógica.

É CIENTISTA POLÍTICO, DOUTOR PELA PUC-SP, PROFESSOR DO INSPER - INSTITUTO DE ENSINO E PESQUISA. AUTOR DE "COLLOR: O ATOR E SUAS CIRCUNSTÂNCIAS"

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