Asmática morre por não conseguir comprar remédio na Bahia

Jovem não tinha dinheiro para comprar 'bombinha' e funcionárias de farmácia não a acudiram

Tiago Décimo, de O Estado de S. Paulo,

14 de dezembro de 2007 | 18h50

Estudante de pedagogia, casada e mãe de dois filhos - uma menina de 9 anos e um menino de 5 -, a recepcionista Viviane Brito Barbosa, de 29 anos, morreu por não ter R$ 10 a mais no bolso na hora de comprar um remédio para asma. Moradora do bairro periférico de Fazenda Grande do Retiro, em Salvador (BA), Viviane começou a ter um ataque asmático em casa, na noite de quarta-feira. Sem conseguir localizar a "bombinha" - equipamento que dispara um jato de broncodilatadores diretamente nas vias aéreas do paciente - no imóvel, resolveu seguir para a farmácia mais próxima (chamada Farmácia Popular, apesar de não fazer parte do programa homônimo do governo federal) para comprar outra. Vendo a urgência da situação, o padrasto dela, o aposentado Renê Moreira, prontificou-se a ir junto, mas esqueceu a carteira em casa. "Chegando lá, Viviane viu que só tinha R$ 12 no bolso - e o remédio custava R$ 22", lembra Moreira. "Só lá notei que eu estava sem minha carteira." De acordo com ele, a crise foi se agravando e as duas funcionárias da farmácia não se mobilizaram para vender o medicamento, nem quando ele se ofereceu para deixar os documentos do carro como prova de que voltaria para arcar com a despesa. Vendo Viviane com os lábios arroxeados, Moreira resolveu desistir da negociação e levá-la diretamente para o centro de saúde mais próximo, no bairro vizinho de São Caetano. Ela desmaiou no caminho e sofreu uma parada cardiorrespiratória pouco antes de chegar ao hospital. Não houve tempo para que os médicos pudessem reanimá-la. "As funcionárias da loja conheciam nossa família, a gente sempre comprava lá, não faz sentido", revolta-se o marido de Viviane, Márcio Santos, de 34 anos. "O que elas fizeram foi absurdo, elas foram completamente negligentes com a vida de uma pessoa. Podiam ser elas do outro lado do balcão." Segundo o presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado da Bahia, Altamiro José dos Santos, o caso é "lamentável". "Os vendedores e comerciantes precisam entender que nosso ramo é diferenciado, que nós lidamos com a saúde humana", afirma. "No nosso caso, a visão mercadológica tem de ser flexível." Santos afirma que as atendentes não eram farmacêuticas e, por isso, o conselho não pode aplicar sanções a elas. Segundo os familiares da vítima, as funcionárias que estavam trabalhando naquela noite foram substituídas por outras já na quinta-feira, mas a direção do estabelecimento não foi localizada para comentar o caso.

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