Assassinato de índio no AM pode ter sido vingança, diz médica

Hipótese de canibalismo foi levantada, porém, Funai e outros especialistas negam prática em aldeias brasileiras

Liège Albuquerque, O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2009 | 17h57

O assassinato do estudante Océlio Alves Carvalho, de 21 anos, no ultimo dia 3 por cinco índios da etnia Kulina teria sido vingança pela morte de um chefe da aldeia Cacau, no município do Envira, em novembro do ano passado. A afirmação é da médica alemã, Christiane Tiss, que trabalha com os indígenas no município de Eirunepé, vizinho ao município de Envira, a cerca de 1.245 quilômetros de Manaus.   Veja também: Funai nega acusação de prática de canibalismo em aldeia no AM   O rapaz assassinado, segundo o delegado do caso, José Carlos Corrêa da Silva, teria sido encontrado sem partes do corpo e relatos de que partes de suas vísceras estavam em panelas. Em e-mail enviado à imprensa, a médica afirma que "a vingança é uma característica da etnia Kulina, mas não o canibalismo". O delegado Silva também trabalha com a hipótese de vingança. "Foi um assassinato brutal. O relato do canibalismo existe porque foi encontrada uma panela com pedaços do corpo do rapaz, mas foi ódio puro", destacou o delegado.   Silva informou que ainda esta semana um reforço policial deve chegar de Manaus para que os possíveis assassinos sejam procurados na aldeia. "A Fundação Nacional do Índio (Funai) lavou as mãos, não respondem nossos telefonemas, não mandam ninguém para cá. A população da cidade está revoltada, então temos de dar continuidade ao processo e buscar os possíveis assassinos". A reportagem também entrou em contato com a assessoria de imprensa da Funai em Brasília, mas não obteve resposta.   Ainda segundo o e-mail da médica, no centro da cidade de Eirunepé foi encontrado o corpo do Kulina identificado como José, de 66 anos. Ele teria vindo à cidade para receber a sua aposentadoria e fazer compras. "Conforme o relato de outros Kulina, no sábado, após o meio dia, José Kulina foi sozinho ao mercado público. Por volta das 17 horas, o grupo achou seu parente morto, atrás de uma serraria, perto de sua canoa". O corpo, segundo o relato, "tinha extensas queimaduras nas costas e na perna e coxa esquerdas, assim como sinais de sangramento no rosto".   Segundo o delegado, os indígenas entenderam que José teria sido assassinado. "Investigamos a morte, mas não foi assassinado. Infelizmente ele fez o que boa parte dos indígenas sem opção fazem: ficaram alcoolizados com o dinheiro da aposentadoria, caiu no lago", disse.   Sem canibalismo   O etnoecologista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Victor Py-Daniel, que trabalhou com os Kulina afirma que o canibalismo não é hábito da etnia. "Se fosse, teriam feito isso com os missionários que trabalhavam com eles desde o início do século passado", diz. "Não é hábito desse povo, que é do Peru e Amazonas, chamados de Madijá (pronuncia-se madirá)", disse.   Para o pesquisador, os indígenas estariam alcoolizados, com uma raiva irracional. "Não sei detalhes da história, mas parece uma ação irracional de um ser humano, não uma característica desse povo indígena".

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