Assessor do Vaticano não crê em risco de segurança para o papa no Rio

"Parâmetro de segurança depende do momento que o mundo vive", diz organizador da Jornada Mundial da Juventude

Luciana Nunes Leal, O Estado de S. Paulo

10 Maio 2013 | 23h42

RIO - Na viagem ao Rio de Janeiro para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), que acontece de 23 a 28 de julho, o papa Francisco vai reforçar a atenção aos pobres e a preocupação com a devastação causada pelas drogas. Mais do que os pronunciamentos, os gestos do papa transmitirão suas mensagens, diz o padre brasileiro João Chagas Junior, integrante da Seção Jovem do Pontifício Conselho para os Leigos, departamento do Vaticano responsável pelas Jornadas. Na terça-feira passada, o Vaticano divulgou a agenda do papa, que inclui, além das atividades oficiais da Jornada, uma visitia à favela de Varginha, na zona norte, e encontros com menores infratores e com dependentes de drogas.

Radicado em Roma há dez anos, o padre João Chagas faz parte da comissão pontifícia organizadora da 13ª edição da JMJ, que trabalha com o Comitê Organizador Local (COL), da Arquidiocese do Rio.“Em 1987, aconteceu a primeira Jornada com caráter mais internacional, em Buenos Aires. Havia um interesse de que a Jornada retornasse ao continente latino-americano, onde se encontra o maior número de católicos do mundo”, diz. Segundo ele, o “cenário global” é o que definirá a segurança pessoal do papa, e não o fato de ele estar no Rio.

Que mensagem o papa Francisco trará à Jornada Mundial da Juventude do Rio?

O papa é um homem de muitos gestos, que às vezes falam mais que as palavras. Ele tem demonstrado isso no pontificado, acredito que também surpreenderá na Jornada. O tema da Jornada, do final do Evangelho de São Mateus, “Ide e fazei discípulos entre as nações”, é um tema missionário. Vai muito na linha do documento de Aparecida, da Conferência dos Bispos Latino Americanos de 2007. O então cardeal Bergoglio coordenou a equipe de redação. Nesse documento se convidava cada católico a ser discípulo e ao mesmo tempo missionário. Também se falava dos jovens, a maioria da população da América Latina, que representam um potencial não só para o futuro, mas para o presente da Igreja.

A escolha deste tema está ligada ao fato de que a Igreja vem perdendo fiéis na América Latina e, em particular, no Brasil?

Lógico que, ao escolher um tema, se pensa no local onde a Jornada acontece, mas, como o próprio nome diz, ela é mundial, é pensada com essa perspectiva. Por mais que a Igreja possa ter perdido uma certa porcentagem de fiéis, me parece que nos últimos anos essa perda se estacionou. Apesar de talvez ter decrescido (o número de fiéis) nas décadas de 70, 80 e início de 90, a gente percebe o aumento da convicção dos católicos. A leitura da palavra de Deus, a frequência na busca dos sacramentos, da confissão, aumentou muito.

Qual é o significado da visita do papa a uma favela?

Em um dos primeiros pronunciamentos públicos o papa falou do desejo de que a Igreja pudesse ser testemunha dessa pobreza, dessa simplicidade evangélica. Ele disse “como eu gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres”. Na América Latina, desde os anos 70 se fala de uma opção evangélica e preferencial pelos pobres, o que não é uma opção excludente. O papa fala não apenas da pobreza material, mas também das pessoas que vivem a pobreza da perda do sentido da vida. Acho que a ideia de visitar uma favela é uma manifestação da solicitude pastoral da Igreja para com os mais pobres.

Os Atos Centrais da Jornada, são sempre os mesmos?

É uma tradição que vai se criando. Quando acontece pela primeira vez um ato central e o resultado é positivo, tende a se repetir na Jornada seguinte.  A cerimônia de acolhida é o primeiro contato do papa com os jovens, como um abraço. A Via Sacra mostra, embora a Jornada tenha um caráter muito festivo, que na vida dos jovens existem muitos desafios. Uma forma de manifestar que Cristo participa das nossas alegrias, mas também das nossas dores. A vigília tem um caráter um pouco do que a Bíblia chama do cenáculo, o local onde, em oração, se recebe a força do Espírito Santo para, no dia seguinte, a Missa do Envio. A missa encerra a Jornada, mas começa a missão. 

O que pesou na escolha do Rio para sede da Jornada?

Em 1987, aconteceu a primeira Jornada com caráter mais internacional, em Buenos Aires. Havia um interesse que a Jornada retornasse ao continente latino-americano, onde se encontra o maior número de católicos do mundo. O Brasil é o país com maior número de batizados.

A mobilidade e a segurança da cidade preocupam?

O Rio de Janeiro tem demonstrado, na história mais recente, passos muito importantes na segurança pública. Como em todas as cidades, podem existir problemas. O Rio não é inseguro, como se pensava há 10 ou 15 anos. A cidade não tem a mesma malha de metrô, por exemplo, que Madri ou Paris, mas a Jornada leva em conta isso e tenta reduzir os deslocamentos dos jovens, fazer com que aconteçam só Atos Centrais. Não temos notícias de problemas significativos de segurança no Rio, nos grandes eventos, nem de mobilidade. Outras vezes que papas visitaram o Rio o que se ouviram foram notícias muito positivas.

A segurança do papa terá algum reforço em comparação com outras Jornadas?

A segurança é adaptada às cidades, mas não ouço falar que no Rio haverá um esquema com parâmetros diferentes de outras Jornadas. Depende do momento que o mundo vive. A Jornada de Toronto aconteceu em 2002, um ano depois do atentado às torres gêmeas em Nova York. Não é porque é no Rio que será diferente. É o cenário global.

Episódios como as bombas em Boston causam apreensão para grandes eventos?

Elevam a tensão no mundo, mas (no caso da viagem do papa) não por ser no Rio.

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