WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Padre Julio Lancelotti resiste a milícias digitais e mantém ajuda aos mais pobres

Religioso de 72 anos realiza trabalho em prol dos menos favorecidos desde 1985

José Maria Tomazela  , O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2021 | 10h00
Atualizado 04 de junho de 2021 | 14h01

O sol ainda não clareia as ruas do bairro da Mooca, na zona leste de São Paulo, quando pães, bolachas e sucos começam a encher a mesa para o café da manhã no pátio da Igreja de São Miguel Arcanjo. Após a missa das 7h, o padre Júlio Lancellotti, de 72 anos, vai se colocar à frente de uma frota de carrinhos de supermercado que irá servir café para, no mínimo, 500 pessoas, público formado por moradores de rua. É uma rotina que em 2021 completa 36 anos.

O trabalho que o padre paulistano realiza desde que foi ordenado, em 1985, já lhe rendeu reconhecimento internacional, mas também muitos ataques. Em um dos mais recentes, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) questionou a índole do padre Júlio em conversa com apoiadores, depois que o religioso, no último dia 15, se encontrou com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “O Lancellotti deu uma Pajero para alguém há um tempo atrás (...) Os caras colocam o Lula com um padre pensando que fosse um padre realmente sério, responsável. É daquele padrão esse padre”, disse.

O presidente se referia a um processo no qual o padre Júlio teria sido extorquido por um ex-interno da antiga Febem e sua mulher. O casal ameaçou o padre com acusações falsas de pedofilia para obter vantagem financeira. Em 2004, o ex-interno comprou um Jeep Pajero financiado pelo padre, que acabou denunciando a extorsão à polícia. O casal chegou a ser detido e libertado em 2008, mas foi preso novamente em 2011, após o ex-interno ter ameaçado Lancellotti de morte. Em maio daquele ano o casal foi condenado a sete anos e três meses de prisão pelo crime de extorsão.

O padre contou que o ex-presidente Lula pediu por meio da assessoria para fazer uma visita à Casa de Oração, uma de suas obras. “Qualquer um que me pedisse eu não diria não. O ex-presidente foi sem cobertura de imprensa. Eles mesmos puseram nas redes sociais deles, eu não pus nas minhas, e isso gerou uma reação do presidente e os ataques que sofri. No final do encontro, eu abençoei o ex-presidente. Se o presidente for lá nos visitar, ele será bem recebido e também será abençoado”, disse.

Nesta terça-feira, 1, o padre usou as redes sociais para denunciar ataques de uma ‘milícia religiosa’ formada por jovens católicos que não gostaram de ele ter indicado a leitura de livros progressistas, como a obra ‘Teologia e os LGBT+’, de Luís Corrêa Lima.

“As missas aos domingos são online e a gente costuma ter 14 ou 15 mil visualizações. Como recebo muitas informações dos grupos, neste domingo indiquei dois livros com entrevistas do papa Francisco e também um livro de um padre do interior de São Paulo que é bastante ousado, uma releitura da Bíblia a partir da filosofia do bode expiatório.”

A polêmica ocorreu, segundo ele, após ter indicado o livro do padre Luís Corrêa. “É um padre jesuíta, estudioso dessa questão de gênero. Não é um livro panfletário, nem leviano e foi editado pela editora Vozes, que é uma editora católica. A própria editora tinha me mandado e já está esgotado para pedidos pela internet. Esses grupos mais tradicionalistas e conservadores adulteraram a minha foto com o livro, o que não é uma coisa lícita de fazer. Chega a ser um crime de internet. Eles substituíram minha foto e começaram a me bombardear em cima disso.”

Os ataques ao padre foram feitos inclusive por robôs da internet, segundo ele. “Alguns eu bloqueei e eles recriaram quatro, cinco vezes. Conversei com uma jovem que colocou o nome dela e perguntei por que alteraram a minha foto. Ela disse: ‘você é um herege, um comunista que não tem salvação, você vai para o inferno’. Foi um bombardeio, até em meu WhatsApp eles entraram, todos de fora de São Paulo, muitos com prefixos de outros Estados. Um deles, mais piedoso, disse: ‘te respeito porque você é padre, mas você é um condenado. Estou rezando pela sua conversão porque você vai para o inferno’”.

Não é a primeira vez que o padre sofre ataques por defender os LGBTI+. Em 2015, ele foi condenado por membros da Igreja Católica após lavar os pés da atriz transexual Viviany Beleboni, que se crucificou durante a 19ª Parada Gay, em São Paulo. 

Na homilia da missa de segunda-feira, 30, em homenagem à Santíssima Trindade, ele já havia dado um recado a quem é contra a diversidade. “Deus não é binário, é trinitário. Aberto a tudo e a todos, é o Deus que acolhe a diversidade, é o Deus amoroso e compassivo, comunitário, solidário, é o Deus comunhão. Quem quer um Deus só para si não quer o Deus de Jesus.”

Padre Júlio Lancellotti tem um histórico de brigas em defesa de moradores de rua, menores infratores, ex-detentos, travestis e transexuais. “Um grupo que cresceu muito é o LGBTI+ e principalmente as mulheres trans estão muito feridas, têm muitas cicatrizes e elas ficam surpresas porque eu as trato bem. E aí as pessoas me atacam, e isso me deixa triste, angustiado. É uma coisa deliberada. Alguém usar a técnica de mudar a imagem, de por mensagem no meu perfil como se eu estivesse mandando... Com a tecnologia avançada que nós temos hoje na internet tudo é possível. Alguém pode me colocar lá vestido de soldado nazista, com suástica na camiseta, e muitos vão acreditar.”

Nesta quarta-feira, 2, o padre esteve em audiência com o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB) para levar questões da população de rua. “Estavam nessa reunião, além do prefeito, cinco secretários. Levei para ele uma imagem de Santa Dulce dos Pobres. Ele foi bem receptivo, mas vejo que o Brasil está muito pulverizado e com um individualismo muito forte. Muitas vezes as pessoas veem a solidariedade desvinculada de uma transformação. O prefeito disse que vai fazer com que os abrigos de São Paulo sejam os melhores. Eu disse: 'pois é, prefeito, nunca vai ter abrigo bom, como nunca vai ter cadeia boa'.”

Santa Dulce

Quando os carrinhos voltam vazios do espaço de convivência São Martinho de Lima para a igreja, o padre inicia a distribuição de agasalhos para quem passou a madrugada na rua. “Fizemos dois mil agasalhos com capuz, com a foto de Santa Dulce dos Pobres. Com a pandemia, todos têm de estar com máscaras que também distribuímos. Eles vão passando e vamos entregando o que tem: sabonete, desodorante, escova de dente, xampu, roupas novas. Distribuímos mil marmitas por dia em áreas como Armênia, Praça Princesa Isabel, Praça da República, lugares que têm pouca presença de alimentação e muita gente.”

O gerente administrativo Gabriel Biscaia, de 28 anos, e parte da família - sua mãe, Maria Goretti, e o irmão Aníbal - trabalham como voluntários arrecadando doações para projetos do padre. “O último trabalho foi na coleta de doações de produtos higiênicos para o padre distribuir. A gente entra em contato, vê o que ele está precisando e leva aos domingos, antes da missa. Ele faz um trabalho muito efetivo com a população de rua. O padre enxerga as pessoas muito além da religião, no aspecto humano, sem preconceitos.”

Padre Júlio não tem carro - “aliás, nem habilitação eu tenho” - e quase sempre está com a mesma sandália e as mesmas roupas. Ele considera incoerente conviver com moradores de rua e ter carro novo ou algum luxo, mas até por isso acaba recebendo críticas. “Meus piores momentos são quando vejo moradores de rua sofrendo violência. Quando sofrem violência por causa de mim, quando batem neles e falam: ‘você é protegido do padre. Vai chamar o padre pra ver você apanhar’. Tudo isso é o que se chama hoje de aporofobia, ódio dos pobres.”

A pandemia, segundo ele, agravou as condições de pobreza em São Paulo. “Vejo hoje muita gente na rua, muita gente empobrecida, sem esperança, abandonada. O Brasil está vivendo um momento muito triste e difícil. Todo dia recebo milhares de pedidos de oração. Todos os domingos, leio dezenas de nomes de pessoas falecidas. Parentes pedem orações para os que ficaram desempregados, para os familiares que perderam, alguns até revoltados por não terem sido vacinados. E muitas vezes a dor do nosso povo é tratada com deboche. E os que defendem os mais pobres são duramente atingidos pela retórica do ódio.”

Com os cabelos brancos emoldurando a vasta calvície, sob o peso dos seus 72 anos que já lhe renderam uma artrose no joelho, padre Júlio disse não ter intenção de parar de incomodar quem menospreza os mais fracos. “Enquanto estiver como pároco e na ação pastoral, essa é minha missão e meu compromisso. Mesmo que queira deixar, não consigo, porque logo cedo eles, os moradores de rua, estão lá na porta da igreja. O arcebispo dom Odilo (Scherer) disse que quem está com os pobres vai apanhar e sofrer como eles. Está claro que o caminho que eu faço é o caminho do fracasso, porque estou do lado de quem é destruído e espezinhado.”

Trajetória

Descendente de italianos, Júlio Renato Lancellotti nasceu em São Paulo, em 27 de dezembro de 1948, filho de um comerciante e de uma secretária. Aos 12 anos, entrou em um seminário católico em Araraquara, mas só se formou frade anos depois em uma escola de presbíteros agostinianos da capital. Aos 19 anos, abandonou a batina e só retomou a vida religiosa após conhecer o bispo dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, em 1980.

Com o então bispo-auxiliar de São Paulo, fundou a Pastoral do Menor da Arquidiocese da capital e iniciou o trabalho com menores infratores. Em 1985, foi ordenado sacerdote, participou da criação da Pastoral da Criança e contribuiu na formulação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Em 1991, fundou a Casa Vida I e, depois, a Casa Vida II para crianças portadoras do vírus HIV. Escolhido pela Arquidiocese para ser o vigário episcopal do Povo da Rua, assumiu vários projetos de atendimento à população carente de São Paulo, entre eles o ‘Gente da Rua’ formado por ex-moradores de rua que se tornaram agentes comunitários de saúde.

Em 2000, recebeu o Prêmio Franz de Castro Holzwarth, dado pela OAB por seu trabalho contra a violação dos direitos de crianças e adolescentes. Três anos depois, foi agraciado com o Prêmio Opas, da Organização Panamericana de Saúde, pelo trabalho da Casa Vida. Em 2004 recebeu dois prêmios nacionais de direitos humanos e, em 2007, o Prêmio Direitos Humanos da Presidência da República, na categoria Enfrentamento da Pobreza. Padre Júlio recebeu também, em 2004, os títulos de Doutor Honoris Causa das universidades São Judas Tadeu e Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

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