Até 2006, acidentes estavam diminuindo

Estatísticas foram alteradas a partir da colisão de Boeing com Legacy

O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2029 | 00h00

A seqüência de queda da quantidade de acidentes aéreos no Brasil foi rompida. Em 2006, o número de acidentes aeronáuticos no País (67) foi o segundo maior da década, perdendo apenas para 2001, quando o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) registrou 68 desastres. Neste ano, até o choque do Airbus A320 da TAM com o prédio da empresa na Avenida Washington Luís, em São Paulo, já haviam ocorrido 49 acidentes. O acidente do Airbus e a colisão do Boeing da Gol com o jato Legacy, em setembro do ano passado, são também os dois maiores desastres aeronáuticos da história do País. Com eles, houve um salto no número anual de vítimas. Em 2006, foram 215 mortos, sendo que 154 no acidente da Gol. Neste ano, já somam 241 (199 no da TAM). Para ter uma idéia do que isso significa, em 2005, quando não houve nenhum grande desastre na aviação comercial, morreram 33 pessoas nos 57 acidentes registrados pelo Cenipa. A maioria das ocorrências, no entanto, envolve aviões menores, geralmente os usados nas chamadas aviação geral e aviação agrícola. Só um dos ramos da primeira, o táxi aéreo, respondeu por 14 casos em 2006. A aviação geral fechou o ano com 37 ocorrências, quase a metade do total - a aviação agrícola ficou com 10 casos. "Atrás desse aumento de acidentes pode estar o aumento das escalas", afirmou o brigadeiro Renato Cláudio Costa Pereira, ex-secretário-geral da Organização da Aviação Civil Internacional (Icao, na sigla em inglês). "Se a maioria dos acidentes ocorre nos pousos e decolagens, é possível que um aumento das escalas possa trazer mais riscos. Esse é um fator que deve ser analisado." Desde que o novo sistema de malha aérea foi adotado no País, em 2003, o número de acidentes cresceu 15,5%. Em 2006, o índice ficou 17,5% acima do registrado em 2005. Esses números, no entanto, são muito inferiores aos registrados nos anos 80 e no início dos anos 90. Em 1990, por exemplo, ocorreram 188 acidentes aéreos no Brasil, para uma frota de 7.494 aeronaves. TENDÊNCIA De lá para cá, duas tendências tinham se consolidado. A primeira foi de uma redução ano a ano dos acidentes aéreos no Brasil até 1999, quando foi registrado o menor número dos últimos 20 anos: 50 casos. A partir daí, houve uma pequena tendência de alta. "Essa queda começou depois que a Icao adotou medidas para melhorar a segurança de vôo", contou o brigadeiro Pereira. A outra tendência foi a de aumento da frota, que neste ano chegou a 11.182 aeronaves. Isso fez o porcentual de aeronaves envolvidas em acidentes permanecer praticamente estável em 0,5% a 0,6% nos últimos dez anos. "Esse é um setor muito complexo. É preciso pôr gente do ramo para administrá-lo", afirmou o brigadeiro. O estudo do Cenipa mostra ainda uma redução da média de aeronaves destruídas nos acidentes. Na década de 90, os números oscilavam entre 30 e 50. A partir de 2000, a variação tem ficado entre 21 e 31 aeronaves destruídas, com um pico de 43 anotado em 2001. Existe um fator importante para explicar esses números. As pistas de aeroportos menores, instalados no interior do País, melhoraram. São as mais usadas pela aviação geral. Como a maioria dos acidentes ocorre em pousos e decolagens, é natural que a gravidade dos acidentes diminua com a melhoria das pistas. Todas as vezes que um acidente aéreo ocorre uma equipe de investigadores do Cenipa é deslocada até o local. Seu objetivo é descobrir todos os fatores que contribuíram para o desastre. Para tanto, eles examinam o local, recolhem peças da aeronave ou destroços, ouvem testemunhas e tentam reconstituir o que se passou nos instantes que antecederam à tragédia. DADOS Nem sempre as equipes do Cenipa podem contar com os dados das caixas-pretas que gravam as vozes na cabine (Cockpit Voice Recorder) ou os dados dos equipamentos das aeronaves (Flight Data Recorder). É que a maioria das pequenas aeronaves - aviões e helicópteros - envolvidos nos desastres não contam com o dispositivo. Mas sempre que as caixas-pretas estão à disposição dos investigadores são os dados extraídos delas que norteiam as apurações. O gravador de dados de um Airbus, por exemplo, monitora quase 600 parâmetros da aeronave. Embora à primeira vista alguns deles possam parecer irrelevantes, acabam sendo úteis durante o processo de investigação. Após a coleta das informações, começa o trabalho mais árduo, de sincronização dos parâmetros técnicos com o áudio captado na cabine de comando. Para tentar cobrir todas as possíveis causas de uma tragédia aérea, o Cenipa possui divisões encarregadas de investigar suspeitas específicas em cada caso, como os aspectos fisiológicos e psicológicos da tripulação. Também há seções destinadas à aviação militar, à civil e de gerenciamento e prevenção de novos acidentes.

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